

O AMOR PODE ESPERAR
Katherine Applegate

TRADUO
Luciano Machado
4 edio
ttulo original: Sharing Sam
Editora tica
Impresso e Acabamento
Lis Grfica e Editora Ltda

Resumo

Entre o amor e a amizade
Para Alison, Sam Cody  irresistvel: aquele belo rosto, os olhos penetrantes... Quando ele a convida para danar no baile da escola, fica eufrica. Mas a alegria 
acaba quando descobre que sua melhor amiga, Isabella, tambm se apaixonou por Sam. Sofrendo de uma doena incurvel, ela est para morrer. Diante desse facto, Alison 
se conforma e deseja que os ltimos dias de Isabella sejam os melhores de sua vida... mesmo que ela e Sam tenham de esconder o seu amor. Mas ser que eles podem 
guardar segredo de um sentimento to forte?

Sumrio
1. Filho ilegtimo de Mick Jagger
2. Sinos, apitos e holofotes
3. Apenas trs semanas de vida
4. No sou turista, moro aqui
5. Meus braos ficaram arrepiados
6. Beijada somente duas vezes
7. Um tremor desceu pelas minhas costas
8. Uma velha cano dos Stones
9. Feliz por algum tempo
10. Dezesseis anos e nenhum beijo
11. No quero mais dividir Sam
12. Estou morrendo e estou com medo
13. O sonho virou pesadelo
14. Ela estava indo para casa conosco
15. Pensei que fosse desmanchar na areia

1. Filho ilegtimo de Mick Jagger

Uns diziam que Sam roubara uma loja em Okeechobee. Outros, que ele era traficante de drogas. Fontes bem-informadas do banheiro das garotas garantiam que ele era 
filho ilegtimo de Mick Jagger. Estvamos entediados com nossas vidas montonas, e Sam - misterioso e calado - tornou-se o alvo de todo tipo de especulao. Sendo 
novato na escola e o nico garoto no curso de biologia a exibir uma jaqueta de couro preta, no podia ser diferente.
Sam dirigia uma motocicleta, sem capacete. Num ambiente em que predominavam carros do tipo sed da hevy e trailers sbrios, a grande Harley no bloco B dos estudantes 
chamava a ateno. Cheirava a membros mutilados, fraturas e mortes prematuras.
Do meu lugar perto da janela, na aula de espanhol, eu no conseguia desviar os olhos da moto, enquanto conjugava verbos. Imagino que, por causa da Harley, e mesmo 
ignorando os boatos, no me surpreenderia se por acaso viesse a testemunhar a morte inevitvel de Sam Cody, numa segunda-feira, aps as aulas.
Eu estava sentada embaixo de uma rvore no meio do laranjal perto de minha casa. Snickers, minha gua rabe, estava pastando por perto. O dia claro e quente ofuscava 
como um prisma. Estava com meu livro de histria aberto no colo, e para mim era como se o estivesse lendo.
Ia ao laranjal de vez em quando, s vezes para estudar, mas quase sempre para devanear. O objeto dos meus devaneios era Lance Pots, um garoto brilhante de olhos 
azuis, da alta sociedade; aluno do penltimo ano do colegial e presidente do clube de futebol, com quem eu sonhava havia meses, beijando o travesseiro depois dos 
embalos de sbado  noite. Embora Lance no tivesse a mnima idia da minha existncia, ele sempre teve a gentileza de aparecer em meus sonhos a qualquer momento.
Mas, ultimamente, sem aviso prvio, Sam Cody comeou a aparecer neles tambm e eu no estava bem certa sobre o que fazer disso daqui para a frente. Sam no era propriamente 
o tipo de cara por quem me sentia atrada. Ainda que, para falar com franqueza, ele no fosse o pior dos garotos.
O ronco de uma motocicleta quebrou o silncio. Eu joguei o livro de lado. Ali no era uma pista de moto. A rigor, nem era uma pista para cavalos. e praguejando, 
eu fui at a estrada aberta e cheia de poeira que dividia o laranjal.
Ento vi a jaqueta preta, os cabelos bem compridos, sabia que era o Sam.
Uma coisa era imaginar uma histria tenebrosa com pista de boliche de Orville Redenbacher numa noite de segunda-feira. Outra coisa bem diferente era cair numa armadilha 
naquele fim de mundo, armada apenas com o borrifador de roupas que minha me colocara na minha meia no Natal passado.
- Ei! - gritei. - Saia da trilha!
Subitamente, como se obedecesse s minhas ordens, arremeteu e virou. Formando um arco perfeito no ar, precipitou-se fora da estrada. Sam agarrou-se  moto como um 
domador agarra-se aos cavalos, enquanto ela caa verticalmente no cho, perto da laranjeira, virando uma cambalhota antes de parar.
A Harley silenciou; o campo se encheu de chilros chiados. Parei, esperando ouvir um gemido ou algum sinal de vida. Nada.
Enquanto corria at os destroos, preparei-me para deparar com um defunto ensangentado de olhar fixo - como numa cena de filme de horror. Relembrei as primeiras 
pginas do meu livro de primeiros socorros.
As primeiras eram sobre respirao, mas que diabo era o C?
A grama mexeu-se.
Sam estava preso na carcaa retorcida de sua Harley.
Um pequeno filete de sangue escorreu do lado esquerdo de sua testa, ele abriu os olhos.
- Isto aqui  o inferno, no ?
Eu abanei a cabea, incrivelmente aliviada por ele estar vivo.
- Flrida - eu disse.
- Bem perto.
- Eu estou aqui para salv-lo - afirmei, nervosa. - No se
mova.
Inclinei-me para examinar seus olhos. Se suas pupilas estivessem dilatadas, seria um mau sinal, embora no me lembrasse por qu. De perto, seu rosto era s ngulos 
e planos - uma lio de geometria. Seus olhos eram quase negros, testa larga, clios espessos. Eu estava em dvida sobre as condies de suas pupilas. Senti um leve 
cheiro acre de tabaco. Ele fumava.
Examinei um corte profundo na sua mo esquerda.
- Voc tem desejo de morrer, ou algo assim? - murmurei.
Ele colocou a mo em sua testa ensangentada e praguejou.
- Estourou aquele maldito pneu. Eu no posso acreditar.
Faz s duas semanas que eu o troquei! P, cara,  de enlouquecer!
- Mas por que voc no usa um capacete, pelo amor de
Deus?  a lei. Alm disso - acrescentei - voc fuma.
Sam encarou-me como se eu estivesse fora de foco.
- Eu estou deitado aqui, sangrando,  beira da morte, e voc
fica ralhando comigo?
- Espero que compreenda a sorte que teve em cair numa
moita de grama. Poderia ter sido um monte de pedras.
- Felizardo, no!?
- No se mova; preciso pensar. Recebi noes de primeiros
socorros quando era bandeirante, mas isso foi h sete anos.
Sam comeou a tirar sua perna do meio dos destroos. Ele se
retraiu.
- Pare - gritei -, a vtima deve ficar imvel!
- Eu no sou a vtima - disse ele, alisando um pra-choque
retorcido.
Examinei o ferimento em sua cabea. Sem dvida estava
sangrando, mas no muito. Eu precisava de algo para improvisar um curativo. Havia somente uma coisa a fazer. Tirei minha camiseta. Felizmente eu estava usando a 
parte de cima do biquni por baixo dela.
- Acho que estou no cu, afinal de contas - ele disse
Tentei rasgar a camiseta com os dentes. Sempre funciona
nos filmes. Os filmes, como sempre acontece, esto cheios de
bobagens.
- Sou Sam Cody, por falar nisso.
- Eu sei - respondi, e me arrependi no mesmo instante por ter dito isso.
Afinal de contas, no havia razo para que eu soubesse.
- E voc  Alison. - Com a camiseta na boca pisquei. Afinal de contas, no havia razo para que ele soubesse meu nome.
Meu pescoo comeou a ficar vermelho. Era difcil
flertar e fazer curativos ao mesmo tempo.
- S vou amarrar isto em volta de sua cabea - eu disse-lhe.
Antes que pudesse protestar, agachei-me atrs dele, rasguei a
camiseta em uma longa tira e a amarrei em volta de sua cabea.
Seus cabelos encaracolados caam suavemente.
- Oh! - ele estremeceu. - Foi muita sorte ter uma enfermeira  disposio.
Levantei-me, limpei os joelhos e admirei meu trabalho
- Voc pode entrar em estado de choque a qualquer
momento - disse eu. - Acho que o correto seria cobrir-se com um cobertor.
- Voc podia usar o seu jeans - ele sugeriu.
- Vou pegar meu cavalo e colocar a manta dele sobre voc.
depois vou buscar socorro. Mas tem de me prometer no fugir.
- Espera a - disse ele. E, antes que eu pudesse discutir,
livrou-se de sua moto e conseguiu ficar de p. - Isso
est indo longe demais.
- Eu lhe falei para no se levantar. Voc esteve a beira da morte.
- Ser que ouvi bem? Voc falou em cavalo?
- Snickers. Ela est ali debaixo de uma rvore. 
trilha para cavalos; motos so proibidas.
- Eu estava apenas atravessando - ele disse. - tem um
atalho para a rodovia.
- Voc no viu a placa?
- Sim, estava escrito: " proibido atravessar." Qual  a sua
razo?
- Pelo menos eu atravessei a cavalo.
- Seu cavalo pode alcanar cento e vinte?
- No - respondi e chutei o pneu estourado. - Mas agora
sua moto tambm no pode.
Ele ficou extremamente triste e eu me senti uma idiota.
- Olhe, se voc no for ficar sentado aqui, esperando por
uma ambulncia, pelo menos deixe que eu lhe d uma carona.
- No me dou bem com cavalos. Olhe, obrigado por salvar minha vida. Se voc precisar de algum para testemunhar pela sua medalha de honra ao mrito, me telefone. 
Mas eu
estou bem.
Ele arrancou a camiseta. Ela estava manchada de sangue.
- Sinto muito. Comprarei outra para voc, embora esteja
meio duro agora.
Abatido, ele olhou longamente sua moto. Eu me perguntei
se alguma vez na vida tinha olhado alguma coisa com tanta
intensidade.
- Tenho certeza de que ela tem conserto - disse eu.
- Talvez. Voc conhece algum que possa reboc-la?
- Vou ver se me lembro de algum que possa fazer isso. Ele
tirou sua jaqueta de couro preta e jogou-a sobre os ombros. Eu notei um pequeno pacote de lenos Kleenex num dos bolsos. Isso me pareceu to estranho que comecei 
a rir. De certa forma, eu esperava algo mais sinistro.
- O que ?
- Nada. Quer dizer... so os seus lenos de papel.
- Meus o qu? - ele estranhou.
- Nada.
- Bem... voc est com umas belas manchas de sangue - disse ele, despedindo-se.
Ele desceu a trilha mancando. As botas gastas levantavam
pequenas nuvens de poeira. O Sam Cody das loucas especulaes
e boatos cochichados, que poderia ter matado um homem,
assaltado um banco, ou vendido coisas de porta em porta: e no estou me referindo a aspiradores de p.
Contudo ele parecia meio pattico, com seu cavalo de metal
morto na beira da estrada.
Quando o alcancei, ele estava perto da Snickers que estava amarrada.
- Vamos. Posso lhe dar uma carona.
Sam parou. Seus cabelos estavam empastados
e o sangue secara. Parecia muito cansado.
- Olha, nem ao menos a conheo.
- Voc sabe meu nome.
- Estudante do sexto ciclo - um lugar na frente da fileira. Estou acostumado a ver a sua nuca. Ontem voc estava usando um daqueles prendedores de cabelo retorcidos.
- Voc tinha ouvido falar de mim?
- Ouvi... umas histrias - respondi.
- Que tipo de histria?
- Sabe como , se voc  novato numa escola, as pessoas comentam.
- Ih... sei.
Ficou claro que ele no se importava com isso.
Hesitei. ele , bem perto de mim, sujo de sangue
com o suor escorrendo pela testa, parecia muito nauseante.
Ele era mais velho do que os outros caras da escola. Tinha uns bigodinhos de coelho sujos e um andar autoconfiante.
- Voc j esteve em Aukeechobee? - perguntei.
Sam fechou os olhos. Senti que o estava cansando.
Snickers lanou-lhe um olhar desconfiado. Ele apoiou-se no tronco da rvore. Seu rosto estava cinzento.
- Esta  Snickers - eu disse. - Ela no gosta de homens.
- Tudo bem. Tambm no gosto de cavalos. Mesmo assim afagou seu dorso. Ela resfolegou.
- Aqui est o estribo - disse eu, virando o estribo para ele. - O p esquerdo vai aqui dentro e a perna aqui em cima. Entendeu?
- J andei a cavalo. S que refiro minha conduo sem dentes.
Sam montou vagarosamente. Enfiei o livro na minha mochila, passei-a a ele e montei na garupa.
- Voc tem certeza de que no vai entrar em estado de
choque ou algo assim? - perguntei, pegando as rdeas. Voc parece meio... bem, como se estivesse morrendo, para
falar a verdade.
- Nada que uma aspirina no resolva.
Guiei a gua a passos moderados para evitar solavancos
desnecessrios. Segurar as rdeas exigia um ocasional contato de pulso com cintura. Meu pulso e sua cintura rija e quente. Eu sentia o cheiro de suor, de cigarro, 
grama e pele - tudo misturado com o da gua. Parece horrvel, eu sei. Mas no foi.
Deixamo-nos levar pelo movimento leve e macio, para a
frente e para trs, enquanto cavalgvamos. Meus seios roavam as costas de Sam, minhas coxas, as suas coxas. Isso pode parecer muito natural, mas no era.
Alguma coisa estava acontecendo; algo sobre o que no queria pensar muito. Eu no sabia por que, mas tive a sensao de que Lance Pots estava sendo deixado de lado 
em meus devaneios.
Lance tinha l suas credenciais. Tinha um sorriso cheio de covinhas e olhos azuis. Mas era Sam que estava me proporcionando
sensaes incrveis, sob o sol de 28 graus da Flrida.
Cavalgvamos to quietos que cheguei a pensar que ele
entrara em coma. Quando chegamos  rodovia, puxei a rdea e
paramos.
- Moro uma milha mais adiante - disse eu. - Posso lhe
dar uma carona at o mdico.
- Nada de mdicos - disse Sam.
- Por que no?
- Estou duro.
- Eu poderia emprestar...
Sam apeou do cavalo, movendo uma perna por cima do
pescoo de Snickers. Ele fez uma careta quando pisou no cho.
- Onde voc mora? No me importaria...
- Vou pegar uma carona. Obrigado.
- Voc no pode pegar carona.
Ele olhou para cima, piscando com os olhos meio fechados
por causa da luz da tarde.
- E por que no?
- Voc acabar numa pilha de destroos na beira da estrada, tal qual a sua moto.
- Sou um cara forte. Vou tentar a sorte.
- Voc se arrisca demais - eu disse, parecendo a me dele.
Desci do cavalo e peguei a mochila. - Pelo menos deixe-me te
dar dinheiro para o txi.
- No.
- Uma moeda para o telefone, ento.
Pela primeira vez, Sam sorriu. Ele tocou meu ombro.
- Estarei bem, Alison.
Sem saber o que responder, continuei a remexer na mochila
 procura de dinheiro. Enquanto isso, Sam saracoteou
Snickers. Ele sussurrou alguma coisa em seu ouvido e ela deve ter gostado, porque normalmente no deixa nenhum cara chegar
a um metro de distncia de sua cabea. Ele se inclinou e beijou seu focinho delicadamente. Nesse momento tomei uma deciso muito importante.
Ele me flagrou olhando e eu puxei uma nota de dez dlares.
- Tome - eu disse. - pelo menos leve isto.
Mas no mesmo instante Sam j estava descendo a estrada de
polegar levantado, calculando suas chances, enquanto os carros passavam zunindo.
Eu observava, ele parecia cada vez menor, at que, finalmente, uma pick-up vermelha e caindo aos pedaos parou e Sam saltou na cabine. Ela saiu roncando e levantando 
poeira.
Fiquei imaginando se ele sobreviveria  corrida, ao dia e ao ano.
Eu desejava que sim, porque tinha a louca sensao de que estava prestes a me apaixonar.

2. Sinos, apitos e holofotes
Enquanto eu soltava Snickers no pequeno celeiro atrs de
nossa casa, consegui pensar melhor sobre o encontro com Sam.
Eu quero ser biloga, e bilogos so bons em lgica, metodologia cientfica e tudo mais. Pensando bem, que informaes tinha eu sobre Sam? Que ele era de outro lugar, 
demonstrava ter tendncias suicidas e pouca auto-estima. A Harley, a carona e o cigarro.
Nada muito bom, mas, mesmo assim, no era como se ele lutasse
com feras num show ao ar livre.
Ele estava nas classes mais adiantadas, como eu e a Izzy, o
que era sinal de alguma inteligncia, embora no tenha dado
grandes provas disso. Fiquei sabendo que ele estava faltando s aulas..
Por outro lado, ele no era feio. Bem... talvez esta fosse uma
descrio muito modesta.  possvel que fosse de uma beleza
tremenda, estonteante. Alm do mais, ele levava lenos de papel no bolso e beijara minha gua.
escondi o rosto na crina macia e quente de Snickers. No
havia muito mais a falar: Kleenex e um beijo - que nem fora em
mim, e muito menos entre indivduos da mesma espcie.
Ainda assim, alguma coisa acontecera l na rodovia. Algo
muito parecido com os primeiros sintomas de uma gripe: agitao
interior, pernas bambas, coisas assim.
Pode ser uma gripe mesmo, pensei. Ou ento pode ser que
eu, logo eu, esteja realmente apaixonada.
Eu sabia muito bem como seria estar apaixonada: o amor
chegaria com sinos, apitos e holofotes, igual a um alarme de
incndio durante uma prova de matemtica: tem plena conscincia do que aconteceu, e  o que voc mais deseja. Sempre soubera que, quando me apaixonasse, seria assim: 
como uma queda, um salto do World Trade Center; um mergulho da Skyline Bridge no rio Pampa. No fique pensando que eu praticara mergulho alguma vez! Ei! no sou 
louca! Mas, do jeito que o meu estmago estava revirando, no tive dvidas: a sensao era aquela mesma.
Eu estava chegando a algumas concluses. Sempre pensara
que quando me apaixonasse seria: a) por Lance Pots ou algum
parecido; b) por uma pessoa que no fumasse, no batesse com
motos, podendo ser ou no filho ilegtimo de Mick Jagger.
Como os orientadores educacionais gostavam de dizer, eu
era contraditria. Eu precisava de algum que me ajudasse a me encontrar. Eu precisava da Izzy.
O que nos aproximou foi o interesse que ambas tnhamos
por cincias. Conhecemo-nos num curso de vero no Monte
Marine, um laboratrio de pesquisa em Sarasota. Eu tinha nove
anos e ela oito, e ramos as nicas participantes do curso, ansiosas por lidar com cobras lamacentas. Voil! Melhores amigas no mesmo instante!
Izzy - nome completo: Isabella Cates Lopes - era brilhante; um gnio comprovado, vivo e real. Uma das semifinalistas da Westinghouse que entrara direto no segundo 
ano e um crnio em gentica. O tipo de pessoa cujo crebro estava to avanado em assuntos tericos que explic-los para mim seria a
mesma coisa que discuti-los com um gato. Eu estava estudando
cincias aplicadas, mais especificamente a questo da preservao das espcies ameaadas de extino. Ela era terica, abstrata, cabea na "camada de oznio".
Mas no ramos exatamente babacas, tipo CDF. ramos
americanas normais, coradas, de boa aparncia, alunas do curso colegial que, por acaso, tiveram pouca sorte na grande loteria dos casais. Cada uma de ns sabia que 
seu prncipe viria.
Imaginvamos que eles estavam entrando em cena.
Naquele momento a minha irm de dez anos apareceu na porta.
Habilmente, ela girou uma bola de basquete em seu dedo indicador.
- Voc est com um sorriso horroroso na cara. Parece uma
vaca de prespio.
- A Izzy telefonou? - perguntei.
No adiantava discutir com ela. Sara estava passando por
Uma fase detestvel, que comeara mais ou menos desde que ela
nascera, pelo que eu me lembrava.
- Sou sua secretria, por acaso? - Sara afagou o focinho de
snickers. - Eu estava no clube dos arqueiros.
-  provvel que ela esteja no oftalmologista - disse eu.
Passei-lhe a sela de Snickers. Sara franziu a testa
e guardou a sela no quarto de despejo.
- Izzy vai usar culos? - Sara gritou.
- Agora no - respondi.
- Ela tem essas dores de cabea. E j foi a trs oftalmologistas, mas se recusa a acreditar neles, quando dizem que ela precisa usar culos.
Sara voltou e ficou num banco, de pernas abertas como
quem monta a cavalo.
- Posso sair com Snickers um pouco?
- Eu acabei de solt-la, Sara.
Levei Snickers para o estbulo.
- E se lembre do que combinamos: se voc ajuda a dar comida e a limpar o estbulo, pode mont-la quantas vezes quiser. Seno, nada feito.
Ela sentou-se l, praticando seu tpico olhar de dio - uma
verso menor e piorada de mim. Os mesmos cabelos castanho-claros, olhos cinzentos e a mesma aparncia doce e saudvel que fazem as avs nos beliscarem as bochechas 
e com que os
caras bocejem. No a odiava do jeito que ela parecia odiar-me, mas eu no tinha dez anos, a idade em que voc no tem medo de dizer o que realmente est sentindo. 
Perto de Sara sentia-me... confusa. De modo geral eu tinha um instinto muito bom para ver o que se passava na mente de outras pessoas. Mas relacionar-se com minha 
irm era como lidar com um animal domesticado mal-acostumado, irritante e indisciplinado.
- Por acaso j lhe falei que a detesto, Al? - disse Sara despedindo-se.
Fui at o quarto de despejo, sentei-me num ba, sentindo o
cheiro forte e doce de couro e de sabo da sela. Apertei a tecla quatro, que era o nmero de emergncia da Izzy, no telefone sem fio.
Laureen, a me dela, atendeu. Izzy estava na biblioteca, disse-me.
Sua voz estava abafada e branda. Eu podia ouvir soluos ao fundo, entremeado de espanhol.
-  a Rosa? - perguntei, sentindo uma agitao nervosa em
meu estmago. Rosa era a tia cubana da Izzy, que morava com
eles num condomnio  beira-mar.
- Sim, querida.
Laureen nunca me chamou de querida". No era seu estilo.
- est tudo bem? Agora preciso desligar. Isabella est na
biblioteca. Voc pode falar com ela l - um soluo ao fundo. Agora preciso mesmo desligar.
Ouvi o som do aparelho. Algum deve ter morrido - foi
tudo que consegui imaginar. Talvez um dos parentes da Rosa, de Cuba. O pai de Izzy - um escritor famoso - mudara-se de Cuba para os Estados Unidos havia muitos anos. 
Sua me, que divulgara seus livros no mercado americano, cuidara de tudo. Tudo foi muito romntico, pensei. Primeiro, apaixonou-se por
suas idias, suas palavras. Depois, por ele. Muito maior que a vida.
Peguei as chaves da perua e prometi a minha me que estaria
de volta para o jantar. Lembrei-me da poca em que meus pais
trabalhavam juntos numa prspera clnica veterinria, e
usavam-na para emergncias ocasionais. Uma vez, ela servira de ambulncia para um bode que comera uma bacia de Pupperware
cheia de lentilhas. A perua j estava com um cheiro um pouco
ranoso, mas convenci meus pais a mant-la como um carro
extra. No era o meio de transporte mais sexy do mundo, mas
pelo menos eu tinha como me locomover.
A biblioteca do New College estava praticamente vazia.
Encontrei Izzy no lugar de sempre. Era um cantinho agradvel,
sem a vista de uma janela para desviar a ateno. Ela estava
debruada e os cabelos longos cobriam o rosto. s vezes, eu tinha inveja de sua beleza: a cor morena extica de seu pai e a intensidade frgil de sua me. Seu rosto 
era longo e os olhos, penetrantes. Era alta, bem alta e elegante, sem ser afetada. Era uma beleza que intimidava, que deixava os caras perdidos. Ainda assim, eu 
daria qualquer coisa para estar em seu lugar por um dia.
Pilhas de grossos livros com ttulos prolixos tomavam todo
o espao. Coloquei minha mochila sobre um deles.
- Izzy - disse eu -, qual  a coisa mais surpreendente que
poderia lhe dizer?
Ela levantou os olhos de um livro. Eles estavam vermelhos.
Provavelmente por causa do colrio do oftalmologista, mas havia
neles algo mais que me preocupou.
- Voc est bem, Iz? (quer dizer... est acontecendo alguma
coisa? Eu telefonei para sua casa e seria capaz de jurar que ouvi a
Rosa chorando.
- Ela est sempre chorando. ela chora at quando v comercial de algodo com todos aqueles velhinhos.
-  o que eu imaginava.
Apontei para os livros.
- Qual  o assunto? Voc no est fazendo algum trabalho
extra para a aula do Leach, est? Voc vai fazer com que
pareamos umas lesmas.
- Apenas um pouco de leitura leve.
Percebi que sua voz estava diferente. Parecia uma mensagem
na secretria eletrnica. Li alguns ttulos:
"oncologa clnica, Manual de diagnstico e terapia de Merck e Radiao,
"Neurologia fundamental".
Alguma coisa comeou a embolar dentro de mim, apertando, conttorcendo, machucando.
- Iz, o que o oftalmologista disse? - perguntei.
Izzy fechou o livro.
- Qual  a coisa mais surpreendente que eu poderia lhe
dizer? - ela perguntou. E, ento, comeou a chorar.
Levei-a at a Praia das Tartarugas porque o sol estava se
pondo, o mar estava calmo e foi a nica coisa que me ocorreu.
Fomos ao nosso lugar habitual - uma duna macia onde, em maio
passado, observamos uma tartaruga marinha pr ovos sob a luz
brilhante da lua.
Naquele lugar tnhamos chorado as nossas mgoas: notas
baixas, injustias dos pais, amores no correspondidos. discutimos o eterno mistrio de todos os tempos: por que os caras so
to infantis? Planejamos nosso curso e nossa carreira brilhante.
Escrevemos nosso discurso de agradecimento ao Prmio Nobel e
demos nomes aos nossos filhos (Izzy gostava de Guinevere; acho
que foi apenas uma fase).
s vezes nos permtamos algumas recordaes: os maches
que discriminavam as mulheres na aula de cincias, o custo de
nossa educao e as inmeras decepes amorosas. Mas nunca
tnhamos pensado em cncer no crebro.
O sol desapareceu no horizonte. Enterramos os ps na areia
fofa. Choramos muito. No conversamos. Havia muitas perguntas
e nenhuma resposta. Finalmente Izzy quebrou o silncio, rindo de
duas gaivotas que disputavam um pedao de alga marinha.
Ouvindo a sua risada, me dei contta de que eu estava furiosa.
- Por que no me contou? - perguntei numa voz sufocada. - Voc j sabia, Iz. Voc tem feito exames. Voc no estava
indo ao oftalmologista. Aquela vez em que sentiu tontura, depois
da aula de educao fsica, e disse que era por causa da menstruao... deve ter achado que eu era idiota demais.
balbuciava, enquanto as lgrimas rolavam pelo meu rosto. eu
- Fui to estpida - acrescentei. - Voc  minha melhor
amiga, sua boba!
Ela dirigiu-me seu olhar sereno. Ser que havia alguma idia
escondida por trs daquele olhar?
Eu me senti muito mal. Tudo o que eu disse se encaixava.
Esta seria a cena - tudo descoberto - e eu j estragara tudo, gritando
com a Izzy quando ela mais precisava de mim. Poderia haver
outras cenas: no hospital, talvez, quimioterapia ou radiao e eu
teria de saber lidar melhor com elas. Queria agir corretamente:
estar com ela at que ficasse bem novamente.
- Oh, meu Deus! Sinto muito! - sussurrei. - Sou uma tola.
S agora comecei a pensar em voc, preocupada e sem ningum
com quem desabafar. Pelo menos eu deveria ter-me preocupado
com voc.
- Do que adiantaria ns duas ficarmos nos lastimando? -
perguntou Izzy, calmamente. - Os dois mdicos diziam-me todo o tipo de coisa: eram os nervos, stress, eu precisava de culos ou era
gripe... Ento eles fizeram o EEG (eletroencefalograma) e vrios
outros exames com mltiplas letras, e os resultados eram to
contraditrios e diferentes que eu pensei: ainda h muito tempo para me preocupar com isso.
Ela observava as ondas se chocando umas contra as outras.
S Ento, olhou direto nos meus olhos.
- de qualquer forma, tenho cinco meses.
Cinco ou seis meses. At o vero, ento.
- Voc quer dizer seis meses, at que fique totalmente curada - disse eu, com esperana de estar certa, embora soubesse que
no estava.
Ela balanou a cabea negativanente quase sem perceber.
- At que eu vire comida de verme - respondeu Izzy. Ela
agora mordia a unha do polegar. - Embora eu tenha visto que pode ser
de trs a quatro meses num livro didtico. De acordo com as
estatsticas, esta parece ser a regra. Varia muito,  claro. Estou pensando no pior.
- Cale a boca, Izzy! Cale a boca! No estamos falando
disto. estatsticas, Izzy. Estamos falando de voc. Voc no vai morrer,
no amanh, nem em quatro ou seis meses ou seis anos.
Segurei suas mos com tanta fora que ela se assustou.
- Os mdicos podem estar enganados, eles se enganam o
tempo todo. Dizem essas bobagens a seus pacientes, e estes
acabam vivendo mais que eles.
- Al, isso aconteceu em O jovem obstinado no vero passado.
e eu - Mesmo assim, voc no tem certeza, ainda - eu disse. - ELles
tm de fazer bipsia. Voc nem ao menos sabe se  maligno ou no.
-  verdade. Mas a julgar pelo que eu sei at agora... mas no Quero
ser muito tola. dizer que  muito provvel que o diagnstico no seja nada
promissor.
Agora O ar estava quente e pesado. Eu estava ofegante.
- O que h com voc? - levantei com dificuldade, gesticulando muito. - Est agindo como se tudo estivesse acabado, sem
nenhuma soluo.
- Acontece que eu tive tempo para pensar sobre o problema. H duas semanas, eles disseram que poderia ser benigno.
Ento Hoje, foi o trmino: estabelecer o tempo de vida que me resta.
- No, no vou aceitar isso! - me surpreendi gritando.
- O problema  que as pessoas no falam sobre a morte - continuou Izzy, pensativa. - Vamos encarar os fatos:  um horror! Eu prefiro falar sobre o Congresso, sobre 
Eddie Vedder ou
sobre aquelas sandlias da Dillards, sabe, aquelas pretas que custam cerca de dois mil dlares.
Ela se deitou na areia. Sob a luz da lua minguante, seus cabelos negros pareciam uma poa dgua.
- Fingimos ser imortais porque  mais fcil.
- Somos imortais, Izzy. estamos no penltimo ano.
ela sorriu.
Voltei ao assunto.
- Eles esto fazendo todas aquelas pesquisas genticas. Voc
poderia entrar num daqueles projetos de drogas experimentais.
- Sim, perguntei ao meu mdico sobre isso. E vou a Miami
para fazer mais exames. Pode ser que eu veja isso l. Mas, mesmo
que entre num deles,  claro que no h garantia de que v dar certo.
Ela deitou-se de lado.
- Mas gostaria de sentir... que de minha contribuio 
cincia e coisas assim. Gostaria de, eu mesma, ter descoberto a
cura do cncer. Mas, se tiver de servir de cobaia, aceito.
Ca de joelhos. A areia j estava fria, mas o cu ainda se tingia de cores.
- Esta  a nnica coisa que me enche o saco! - Izzy disse
suave. - Quero fazer... grandes coisas.
Sentei-me a seu lado.
- Iz, voc, por si mesma, j  grande coisa.
- Voc pode realiz-las por ns duas - continuou Izzy. No se esquea dos gmeos em Paris, certo?
- Voc no vai morrer. Voc est aqui. Voc vai melhorar.
- Tambm h o skydiving. No, vamos deix-lo como
opcional. Os gmeos j so uma tarefa muito pesada.
- Quero comear a partir de hoje - eu disse. - Quero apagar esse dia da minha vda.
Subitamente, pensei em Sam. Ele tambm fora parte desse
dia, o dia que eu queria apagar. Tentei lembrar-me de seu sorriso
calmo ou da sensao de meus braos em volta de sua cintura,
mas tudo que eu consegui me lembrar foi de sua moto voando
pelos ares num lindo arco mortal.
A lua estava ficando mais ntida e brilhante. Ela apontou
para o lugar onde as tartarugas puseram ovos no vero passado.
- Voc acha que elas voltaro?
- Elas sempre voltam. No final da primavera, elas comeam
a desovar, lembra?
Izzy assentiu.
- Voc acha que vou v-las nascer?
- Voc vai v-las.
- Se no - Izzy sussurrou -, voc pode faz-lo por mim,
Al. Os gmeos, o skydiving e as tartarugas. No se esquea, t?
Principalmente os gmeos.
- Voc vai estar aqui. Voc mesma poder fazer tudo isso.
- Talvez esteja certa. Voc no poderia dar conta dos
gmeos.
- Por favor, Izzy, tenha esperana por mim. Est muito cedo
para perd-la.
Izzy sentou-se. Ela balanou a cabea para tirar a areia.
Ficamos observando a lua deslizando pela gua. Eu chorava baixinho. Pude perceber que ela estava me olhando.
- Quando as tartarugas nascem? - ela perguntou.
- No meio ou no final do vero.
- Sempre to rpido?
- Nem sempre.
Izzy assentiu, como se acabasse de tomar uma deciso.
- Est certo, ento - ela disse. - Est certo, Al, estarei aqui.

3. Apenas trs semanas de vida
No espao de vinte e quatro horas todos na escola j sabiam
do problema de Izzy. Os boatos sobre Sam foram suplantados pelo
que se falava dela. Restam-lhe trs semanas de vida, na verdade o
que la tem  Aids, comentam que o cncer dela pode ser contagioso se voc falar nele. Foi to horrvel que chegou a ser cmico.
Os pais de Izzy conseguiram marcar a cirurgia num centro
mdico em Miami. O cirurgio era muito bem conceituado e estava desenvolvendo um trabalho interessante com tumores de crebro, Izzy disse-me muito animada. Na verdade, 
Iz parecia excitada com aquela oportunidade. Esperava at conseguir visitar seu
laboratrio. Imaginei que ela pudesse estar delirando. Inquanto
todos ns estvamos to agitados, ela era... bem, apenas a Iz.
Na quarta-feira Izzy insistiu em ir  escola, embora tivesse de
pegar um vo para Miami s 4 horas da tarde com seus pais. Ela
no queria perder a prova de fsica que ia ter naquela manh.
Depois das aulas sentamo-nos embaixo de uma palmeira para
almoar. Nenhuma de ns estava com muita fome.
- Voc est nervosa? - perguntei-lhe.
- Nervosa? S porque algum desconhecido vai furar um
buraco em minha cabea e tirar um pedao do crebro? No, no
estou. Agora, se eu fosse fazer uma operao plstica no nariz,
estaria nervosa.
Izzy tirou uma longa mecha de cabelos dos olhos. Quando
voltasse de Miami no as teria mais. E eu lhe disse que, mesmo
assim, achava que ela ficaria bonita.
- Apenas prometa-me isso, .. Se eu sair da cirurgia igual a
uma couve-flor, convena-os a desligar a mquina - disse ela,
jogando seu almoo no lixo. - Eu pedi a mesma coisa a meus
pais, mas voc sabe como os pais so apegados a seus filhos. Estou
falando srio! Se eu sair babando, ou se, de repente, comear a
assistir a seriados na televiso ou coisa assim, acabe com meu
sofrimento.
Consegui evitar uma gargalhada, limitando-me a um riso
contido.
- No,  srio - insistiu ela. - prometa.
- Prometo.
Fiquei feliz por estarmos usando culos escuros. No queria
ver seus olhos.
Izzy inclinou-se e disse perto do meu ouvido:
- Cara moreno, meio estranho e taciturno  minha direita.
Segui seu olhar. Sam. Era a primeira vez que o via desde
aquela tarde na plantao. Provavelmente, estivera matando aula.
Eu no falara nada sobre ele com a Izzy. De alguma forma,
todos aqueles sentimentos novos e surpreendentes sobre o Sam
haviam se perdido no meio de tantas preocupaes.
Ele estava encostado no tronco coberto de espinhos de uma
palmeira perto dali, talvez nos olhando, ou no. Ele tambm
usava culos escuros.
A brisa mida brincava em seus cabelos.
- Sam, o garoto malvado - disse Izzy. Ela abaixou os culos. - Sabe, eu at gosto da aparncia daquele cara.
- Sam? - perguntei de forma neutra. - Como  possvel
uma coisa dessas?
- Bem, quando a gente  alta demais as opes ficam meio
limitadas, Al. Ele tem a vantagem decisiva de ter mais de 1,80
metro. - Ela recolocou os culos e voltou para seu lugar. - E ele
tem um daqueles sorrisos abertos! Como se soubesse de algum segredo picante, e no quisesse cont-lo. Alm disso - acrescentou -,
h aquela Harley. Certamente para azucrinar a cabea das mes.
- Acho que sua Harley est fora de circulao.
Nem bem acabara de dizer j estava arrependida. Era uma
hora imprpria para trazer  tona minha louca paixo por Sam.
Queria discuti-la com Izzy, mas no naquele momento, justamente naquele dia.
-  mesmo? Como voc sabe? Arranquei um pedao de grama.
- Vi quando ele a bateu naquela plantao onde costumo cavalgar. Ela espatifou-se.
- Voc est brincando. Por que no me contou?
- Bem... - parei. - Foi na segunda-feira.
- Oh - Izzy balanou a cabea. - Ento, o que aconteceu?
- Ele sujou minha camiseta de sangue.
- A prpria emergncia 911, no ? - disse ela, sorrindo. Nenhuma respirao boca a boca? Nenhuma massagem naquele peito jovem, liso e rijo?
- No havia perigo de vida.
Ela lanou-me um olhar inquiridor.
- Acho que nesse mato tem coelho. No tem?
- Nenhum coelho, Iz -menti. - Ele veio, bateu e sangrou.  isso. - Bom, porque estou pensando, talvez, em ir at l e convid-lo para sair. Ei, garoto, eu sei que 
sua
Harley est morta, mas; talvez, voc ainda possa me levar para dar um passeio.
- Sim, certo.
- Voc acha maluquice? - ela encolheu os ombros. - De qualquer forma, o que me importa? Sabe, eu acredito que o espectro da morte est me liberando. O que de pior
poderia acontecer? Eu convido-o para sair, ele diz no. Eu morro. Convido-o para sair, ele diz sim. Eu morro. Em ambos os casos, a parte rejeitada assemelha-se a 
uma reles grama na paisagem, no ?
- Voc fala srio?
- No sei. No sei de mais nada, Al. Ela deitou-se na grama e suspirou.
- Voc acha que eu vou morrer virgem?
- Sim, apostaria nisso. Mas calculo que ser aos noventa anos. Izzy riu.
- Voc  uma tremenda otimista.
- Sou otimista. E queria que voc seguisse o exemplo e se convertesse.
- Bem que gostaria. Deve ser bom acreditar no fato de que, se voc tem bons pensamentos e diz a coisa certa, tudo ficar timo.
A sutileza do sarcasmo magoa.
- Voc me faz sentir como uma nova poliana - eu disse. - Silncio, poliana - Izzy me repreendeu. - Olhe quem vem mancando.
Sam estava caminhando vagarosamente pela grama. Perguntei-me se ele tinha ido ao mdico. O corte em sua testa transformara-se numa linha fina e preta. Senti uma
louca torrente de esperana enquanto ele se aproximava. No sei o que eu esperava exatamente. Talvez, numa fantasia insana, que ele me pegasse em seus braos e dissesse
que sua vida mudara para sempre desde o momento em que nos tocamos na plantao de laranjas.
- Ol - ele disse. Acabou a fantasia. - Ol - respondi.
- Acho que  a minha vez - falou Izzy. Ela riu. - Ol.
- Voc  a Izzy, certo? Ciclo 4 de francs.
Ela tirou os culos.
- Sim. Estou surpresa de ter-se lembrado. Voc no tem aparecido muito por l.
Ele sorriu e depois ficou srio.
- Soube do seu tumor.
Esta era a palavra, to feia e rude que todos os outros procuraram evitar. Izzy no ficou irritada.
- Sim, bem, de qualquer modo estava pensando em cortar os cabelos.
Sam riu, mas seus olhos estavam aflitos.
- s vezes, a vida acaba com a gente - disse. - Voc vai fazer cirurgia?
- Segunda-feira. Primeiro, os exames. -  desagradvel.
Camos num silncio terrvel.
- Por falar em coisas desagradveis, fiquei sabendo que sua moto se espatifou.
Sam enfiou a mo no bolso de sua cala e tirou uma nota de cinco dlares.
- Pegue - disse, olhando-me pela primeira vez. Senti minhas bochechas corarem.
- O que  isso? - perguntei, olhando para a nota
com desagrado.
- Por sua camiseta. Uma quantia inferior ao valor dela - Por favor - eu ri. - Era apenas uma camiseta velha.
hesitou e, ento, colocou a nota de volta em seu bolso.
- Bem, de qualquer forma, agradeo pela ajuda novamente.
Fiquei atenta, buscando ver alguma coisa em que pudesse me
agarrar - uma falha na voz, um contato de um segundo nos olhos..
- , qualquer coisa que demonstrasse que ele estava sentindo
a mesma coisa que eu. Mas Sam simplesmente voltou-se para
Izzy e tirou os culos:
- Boa sorte - disse, delicadamente, e saiu mancando.
- Droga! - resmungou Izzy. - Perdi minha grande chance.
Perguntei-me se ela estava falando srio e, se estivesse,
o que eu faria. Ela sempre falava dos caras daquele modo, mas
dificilmente colocava as idias em prtica. Acho que se sentia to acuada e tmida como eu perto deles - o que era enlouquecedor.
Ela tinha um rosto digno de capa de revista. Um Q.I. na estratosfera
e, como meu av gostava de dizer, era muito bem-dotada.
Na maior parte do tempo, porm, Izzy estava to mergulhada
em seu pequeno mundo que ficava meio fora da realidade. Se um
cara flertasse com ela, somente quatro dias mais tarde
percebera. Enquanto eu, ao contrrio, estava ligada a
tudo. A cada nuance, olhar, palavra ou nas entrelinhas. Se um cara
esbarrasse
em mim no corredor, naquela mesma noite eu estaria escolhendo
vestidos de noiva.
Izzy suspirou.
- Voc percebeu alguma coisa entre ns? Um tipo de
atrao fatal? Ou foi apenas compaixo? Que me importa!
Talvez, se voltar para a escola antes do Dia dos Namorados, eu possa convid-lo para o baile. voc acha que pegaria mal?
- No - eu disse, desviando o olhar. - Seria um gesto muito ousado, muito feminista de sua parte.
- Sabe, estou pensando seriamente.
- V em frente, Iz. Conte tudo a Sam, Voc teria razo...
- No diga "para viver".
- Eu s ia dizer... que voc teria algo que a interessasse,  isso - disse.
- Talvez. Veremos. Voc acha que ele gosta do tipo cancergeno, nauseado e careca?
- Voc esqueceu de dizer: brilhante... ento
- Se as sesses de radioterapia me deixarem enjoada, sempre podemos discutir mecnica quntica enquanto tenho vontade de vomitar.
- Isso  o que eles chamam de humor negro?
- Estou aborrecendo voc, no ?
Toquei em seu ombro.
- Apenas quero que voc pense positivamente, certo?
Por mim.
- Eu estou - Izzy ficou de p num pulo. - Estou pensando positivamente sobre o tamanho do vestido preto que usarei no
grande encontro. E como vai ser se a comida no parar no estmago?
-  um comeo - disse. Levantei, limpei a cala e peguei a
mochila. - Voc est falando srio? - perguntei, fingindo
indiferena. - Sobre o Sam?
Izzy deu uma leve risada.
- O que voc acha?
- No sei. Voc parece...
- Por favor, voc me conhece. Falar  difcil, mas fazer  que
so elas. Ou  o contrrio - acrescentou ela. Comeamos a caminhar. - Alm disso, tenho outras coisas em que pensar.
Notei que seu lindo rosto tinha uma aparncia cansada.
- Explique-me como essa coisa de otimismo funciona.
Estava sentindo um aperto no corao naquela tarde
enquanto caminhava com a Izzy pelos corredores cheios at o hall
de entrada. Seus pais estavam esperando, tensos, no carro.
Tirei dois pacotes amassados da mochila.
- Sabia que voc ia fazer disso um acontecimento - sus pirou Izzy. Ela fez um sinal para os pais e nos sentamos no
banco de madeira perto da porta. O vice-diretor, senhor Lutz,
estava de p na porta da secretaria, observando-nos. Ele fizera o
grande discurso de praxe. "A escola deseja-lhe pronta
recuperao"
"No se preocupe se se atrasar um pouco nas matrias
- esse tipo de coisa.
Ela rasgou o papel brilhante do primeiro presente e tirou
um pijama vermelho.
- Excelente! - declarou. - Se bem que com
toda a certeza os ndicos teriam preferido uma linda roupa
de ursinho.
... - calei-me. Decidi no contar que nos ltimos dias
levantara todos os artigos sobre cncer no crebro, no computador. Um deles falava que os pijamas de boto eram mais apropriados para
pacientes - nada que tivesse de tirar pela cabea.
- eu o qu?
- Nada. Abra o envelope.
Izzy abriu o envelope de papel manilha.
- Para pr na parede do hospital - expliquei, enquanto ela
tirava o mapa de ruas de Paris do Miedelin.
Ela olhava-o fixamente, enquanto seu dedo indicador percorria devagar o "P" de Paris vrias vezes.
Abracei-a e comeamos a chorar. Izzy afastou-se juntando
os presentes e saiu correndo para o carro de seus pais.
- Tudo vai dar certo! - gritei, mas a porta j se fechara E
o senhor Lutz foi a nica pessoa que me ouviu.

4. No sou turista, moro aqui
Na manh seguinte, estava toda atrapalhada com a combinao da fechadura do meu armrio, quando Sam apareceu no meio de uma multido de estudantes que se movimentavam
pelos corredores.
- Oi! disse ele. Ele tinha esse tipo de voz contida e baixa que faz com que voc fique mais atenta. - Ol! retribu, alegre, ainda tentando abrir o meu armrio.
- Trouxe-lhe isto. - Disse ele, e me passou um rolo compacto de um tecido
cinza. Levei um segundo para entender que era uma camiseta. - Eu estava meio sem jeito, sabe,
com essa histria da camiseta. estou meio duro porque a minha moto est no conserto.
Desenrolei a camiseta. Era enorme e cheirava a Tide.
- Est quase nova. S a usei duas vezes. J a lavei - acrescentou, encolhendo os ombros. - De qualquer forma... eu queria
lhe pagar, sabe.
Segurei a camiseta pelos omhros. Uma camiseta masculina - a camiseta do Sam. J usada. Iria us-la para dormir at que dela restassem apenas tiras, linhas ou minsculos
fiapos de algodo.
Sam sorriu.
- Voc est certa. Que tolo! - pegou-a de volta. - Cara, o que eu estava pensando?
- No - agarrei-a novamente. - Quero ficar com ela. De verdade.
Ele cedeu. Enrolei-a e coloquei na mochila antes que mudasse de idia.
- Obrigada. agora voc j pagou mais do que devia.
Ele hesitou. Disse:
- Voc tem notcias de sua amiga?
- Izzy? Ela me ligou
do hotel a noite passada. Eles esto fazendo muitos exames. Ela vai ser internada no domingo para se submeter  cirurgia na segunda.
ela vai ficar bem
- balancei a minha cabea, tentando me convencer.
- A Izzy  forte.
- Conto com isso.
- tambem - disse eu, exibindo um pouco mais
da minha capacidade oratria.
- Vejo voc por a, ento - disse ele, encolhendo os ombros. Era um gesto de garotinho tmido, mas
seu sorriso era mais esperto. Senti que esperava alguma coisa, mas o qu? Antes que eu pudesse saber, ele se foi. Abri
minha mochila e dei uma olhada na camiseta. Senti-me culpada. Eu estava brincando de cabo-de-guerra com uma camiseta enquanto Izzy estava deitada
numa sala de exames em algum lugar, sendo cutucada, picada e vasculhada. para; De repente, comecei a chorar. Corri at o banheiro mais prximo
e me tranquei num cubculo. Era estpido chorar daquela maneira; estpido e cmodo, mas era o que
eu podia fazer por Izzy naquele momento e, alm disso,
no podia parar, mesmo que quisesse. - Depois de muito tempo, tirei a camiseta do Sam.
Percebi o cheiro reconfortante do
tecido macio e cinzento. Ento, sentindo-me totalmente idiota, enxuguei os olhos e fui para a
classe. Choveu de mais no resto da semana.
Os pssaros que migravam para desfrutar o sol da Flrida foram muito
prejudicados pela chuva, mas eu gostei disso. Aquilo parecia combinar
com meu estado de nimo. - No sbado a tarde, levei Sara
 casa de uma amiga. O trfego - na rodovia principal
flua aos trancos, agravado por turistas perdidos e idosos do local. As janelas
estavam embaadas e o desembaador estava quebrado.
Abrimos as janelas e a chuva comeou a entrar, aumentando o cheiro de cachorro molhado do tapete. - Reduzimos a velocidade, quase
parando.
Sara limpou uma janela com o brao.
- Olhe aquele pobre rapaz pedindo carona - contestei. Desista. Quem vai deixar algum entrar no carro todo molhado?
De algum modo eu sabia, mesmo antes de olhar: era o Sam.
Concentrei-me nos dizeres: NO SOU TURIStA - MORO
AQUI de um adesivo colado no pra-choque de um Honda em
minha frente. Fui tomada por uma esperana enorme e imediata
que parecia invadir todas as partes do meu corpo.
Paramos novamente. Ele estava a uns trs metros adiante, no
acostamento. Nossos olhares cruzaram-se. Fechei os olhos e
acenei para ele.
- O que est fazendo? - perguntou Sara. - Voc no pode
deix-lo entrar no carro. Vo nos encontrar em pedacinhos no
Jardim Botnico daqui a dez anos.
- Eu o conheo. Ele  legal.
Foi a descrio mais modesta do sculo.
Sam abriu a porta de trs e entrou.
- Voc parece ter o hbito de me salvar - disse ele, e sorriu
para Sara. - Sou Sam Cody - disse, estendendo a mo. Ela olhou
para ele, surpresa, e, ento, apertou-lhe a mo.
- Sara - respondeu. - Voc conhece a minha irm?
- Sim e no. Principalmente "no".
- Oua me. um conselho: continue com o "no".
Sam inclinou-se e debruou-se no encosto do banco. Ele estava
bem perto. Sentia-me completamente tonta. Apertei a direo
com tanta fora que meus dedos doeram.
- Ela salvou minha vida - segredou Sam a Sara.
Sara me olhou cheia de admirao. O congestionamento
acabou e eu acelerei o carro.
- Apenas improvise uma bandagem - esclareci.
- Ela rasgou sua camiseta para cobrir meus ferimentos - disse Sam.
Sara ofegou levemente.
Encolhi os ombros.
- Bom, simplesmente no podia deix-lo morrer. Olhei no
espelho e consegui retribuir o sorriso de San.
- onde vai!
-  casa de Kayla - disse Sara.
- No, perguntei ao San.
Ele hesitou.
- Qualquer lugar...
- Onde?
Ele balanou a cabea negativamente.
- No, de modo algum.
- Deixe que ela o leve para casa - aconselhou Sara. Acredite em mim. Ela  uma chata.
Lancei-lhe um olhar de dio profundo. Ela no se alterou.
Nem ao menos se encolheu.
- Aproveite suas ltimas horas de vida na Terra, garota - disse eu.
Sam ficou em silncio e olhou pela janela.
Depois encostou no banco novamente. Olhei pelo espelho.
Ele estava rindo. Sua camiseta parecia uma segunda pele. Caa-lhe
muito bem. Ele piscou para Sara.
- Por trs dessas provocaes existe uma forte ligao entrE
vocs, no ?
- Existe um dio profundo - respondEu Sara. - Voc tem
irms?
- Dois irmos mais novos. Um dEles combina com voc.
- Onde eles estudam?
- Esto... em outro lugar.
- Onde? - insistiu ela.
- Sara, onde devo virar para ir  casa da Kayla? - interrompi.
- Bahia Vista. Que  isso? Voc j esteve l umas dez
vezes.
- Foi apenas uma forma de parar o interrogatrio.
- Estava s perguntando ao cara...
- chega de perguntas.
Ela virou-se, com os braos cruzados, e lanou-me sua
hrpria verso de olhar de dio. alguns minutos mais tarde, parav a
na entrada de carros da casa de Kayla. Sara saltou sem urdir
palavra, batendo a porta. O vidro da janela vibrou.
Sorri levemente.
- Briga de irmos, sabe como .
- Isso vai passar.
- Pode sentar na frente se voc quiser. O banco j est molhado mesmo.
Sam veio para junto de mim. Fiquei olhando Sara entrar
na casa.
- No sei por que ela me odeia tanto.
-  normal.
- Se minha famlia for normal, estamos todos perdidos.
Coloque o cinto de segurana, est bem?
- - Ela deve se sentir ameaada.
- Ameaada? - perguntei e sa de r da entrada de carros.
- Com esta linda e elegante... - comeou Sam, interrompendo-se um pouco tentando colocar o cinto - ... irm no
h como no se sentir assim.
Nunca ningum me dissera que era bonita. Minhas bochechas ficaram vermelhas. Abaixei a janela um pouco mais, deixando que meu brao esquerdo se molhasse.
Saboreei a palavra. Sam, aquele cara bonito que estava sentado ao meu lado na minha perua com cheiro de cachorro,
acabara de dizer que eu era bonita.
Percebi que ficara em silncio por um bom tempo.
- Voc faz seus irmos se sentirem ameaados? - perguntei rapidamente.
Sam riu ao se lembrar de alguma brincadeira.
- No, no h perigo de que isso ocorra. Eles acham que
sou louco.
Dei-lhe uma olhada.
- Voc acha que devo ficar preocupada com isso?
- Provavelmente.
Parei. na esquina.
- Para onde vamos? E no diga "cualquer lugar". Hest
chovendo muito e me sentiria uma idiota se simplesmente o deixasse na beira da estrada e voc se molhasse ainda mais. Alm
disso, ouviu minha irm dizer. Sou uma chata.
Sam bateu os dedos manchados de graxa no painel do carro.
- Est bem, ento. Entre na Olark Road, depois da rodovia.
Balancei a cabea. Ns fomos em silncio enquanto a chuva
batia no carro fazendo barulho.
- No vi voc ontem na escola - disse para quebrar o silncio. - Quero dizer, na sala de estudos notei...
- Eu estava trabalhando na Smittys, aquela oficina na
rodovia 41. - ele mostrou suas mos como prova. -  onde eu
estava hoje, tentando ressuscitar um Dodge 78. Nas horas vagas,
estou trabalhando na minha moto. Uma pessoa com quem trabalho ajudou-me a reboc-la.
- E a escola, como voc consegue conciliar?
- O que tem a escola?
- Voc sabe. como resolve o problema das faltas?
- Eu no resolvo nada.
- Mas voc vai... - Olhei para ele e ele sorriu vagamente.
- Vou o qu?
- ficar atrasado. Voc no leu o aviso? Suas notas vo
abaixar. Voc no vai conseguir se formar nunca, vai acabar com
sua vida e ter de passar seus dias trabalhando como...
- Mecnico?
- No, no - eu no queria comear tudo de novo. - No
 isso que eu pretendia dizer.
Lancei-lhe um olhar furtivo. Naquele momento Sam parecEu-me muito mais velho que eu. Tive uma sensao semelhanti
 de alguns veres passados, quando todos os meus amigos foram
acampar e eu ficara em casa. Eles voltaram mudados. Mais
inteligentes e cheios de segredos que eu no sabia. Sam me fez
sentir assim.
A chuva estava parando. Sam deu-me mais algumas indicaes e entrei numa estrada de pista dupla,
tranqila. estvamos bem afastados da cidade, numa plancie
extensa e coalhada de trailers, belas casas de campo e bancas de frutas.
Ele apanhou um folheto sujo de lama do cho.
- Salve os peixes-bois - riu ele. - aquelas coisas de presas lindaS?
- meu grupo est lutando pela criao de mais reservas.
- para salvar esta lesma enorme?
- Est certo, eles so um tanto feios, mas esto em via de
extino. Como so muito vagarosos, so sempre atingidos pelos motores dos barcos. O homem  a sua ameaa mais sria.
-  sempre assim - disse Sam, colocando o panfleto de lado. - Acho que se pode argumentar que as espcies esto sempre desaparecendo, que sempre foi assim e assim
ser.  fcil ser idealista e perder a noo do todo.
- Realmente no . Quer dizer: fcil ser um idealista- sorri. -Aquelas reunies podem ser muito chatas. Mas eu quero ser biloga e talvez trabalhar para proteger
as espcies ein extino ou coisa semelhante.
Sam cruzou os braos.
- Voc  uma garota interessante, Alison. -No, no sou. Na verdade sou bem comum. - No deveria dizer isso.
- Por que no?  verdade.
- Porque voc pode comear a acreditar nisso. - Vire aqui - indicou ele. - Pode parar perto da caixa do correio - acrescentou. Era uma caixa de correio preta, quebrada,
inclinada para um lado, que fora colocada de qualquer jeito, debaixo de um pinheiro espinhoso. A uns cem metros adiante, no final de uma estrada suja echeia de buracos,
ficava um trailer prateado, liso e redondo como um filo de po antes de assar. Prximo dali, cado dentro de uma vala cheia de lama, havia um carro velho - um Cadillac
conversvel, vermelho desbotado. Tudo parecia estar fora de lugar. Era como olhar para um quadro torto na parede.
Percebi que Sam estava me observando. - Esta  sua casa?
- No, mas  onde moro. - Posso lev-lo at l.
- No- disse Sam, rapidamente. Depois acrescentou num tom mais despreocupado. - No h
como fazer o retorno.
Ele pegou o panfleto que estava no assento.
- Sabe, no queria dizer... No h nada de errado em ter animais -comentou, e deu uma risada autodepreciativa. - Tenho absoluta certeza de que j tive um ou dois.
- Voc deveria vir a uma de nossas reunies - sugeri. - No gosto de grupos.
- Foi o que voc disse sobre cavalos, mas acabou montando. - Na hora do desespero voc faz qualquer coisa.
Ele fixou os olhos no panfleto, pensativo. Na capa a figura de um peixe-boi enorme e molengo sorria afvel.
- Pode ser que futuramente...
- O qu? - perguntei, tentando no parecer muito ansiosa. - Estava dizendo que talvez voc pudesse me mostrar um deles quando no estivesse muito ocupada - um peixe-boi
de verdade. Pode ser que a foto no lhe esteja fazendo justia.
- Gostaria - respondi, tentando dar  minha voz o tom mais indiferente possvel.
Sam hesitou. Seus olhos voltaram-se para o trailer. Seu queixo estava contrado como se ele estivesse tentando no falar. Percebi pelas suas sobrancelhas cerradas
que estava pensando sobre a nossa sada.
No sabia o que dizer em tais circunstncias, ento fiquei sentada l, muda e impaciente, fingindo que nada acontecera. - No, talvez no seja uma idia to boa
assim-disse ele.
Ento, pegou a maaneta da porta como se quisesse sair correndo. Deve ter sido um recorde mundial. Num espao de segun dos, lancei por terra um relacionamento que
nem bem comeara.
- Bem, preciso ir - disse, apressada, apegando-me  pouca dignidade que sobrara.
- Esquea isso - disse Sam.
Compreendi que no estava falando comigo. Ele habanou a cabea, decidido - acabara de mudar de idia.
- Posso dar um jeito- disse ele. - Que tal no prximo fim de semana?
- Prximo fim de semana? Q estvamos consertando as coisas.)
- Sim. A no ser que eu tenha de trabalhar. Ou, sabe como  - ele gesticulou vagamente -, se algo acontecer.
- Claro - respondi, conseguindo desta vez manter-me reservada. Afinal, j tinha passado por essa experincia.
- Bom. Um peixe-boi. Gostaria de ver um daqueles chupins - disse ele, saindo do carro.
- Obrigado pela carona, novamente.
Ele sorriu para mim de forma estranha que sugeria intimidade, talvez porque no fosse muito espontneo em seu jeito de sorrir. Sua expresso mudou como se o outro
Sam emotivo fosse apenas um dubl do verdadeiro.
- Ah, alguma notcia sobre a Izzy? - perguntou ele.
- A cirurgia vai ser depois de amanh - disse eu, pegando na direo. - Tenho certeza de que ela vai melhorar. Gostaria de poder fazer alguma coisa.
Esperava que ele dissesse que ela estaria bem, que no ficasse ansiosa ou coisas assim. O que eu teria dito em seu lugar. Mas ele apenas olhava para mim, quase dentro
de mim.
- A gente faz o que pode - disse ele, e ento subiu andando pelo caminho lamacento.
Fiquei olhando, enquanto ele andava entre as poas dgua. Estava um pouco irritada, muito confusa e tonta. O que acabara de acontecer? Pentei me lembrar de suas
palavras e coloc-las em ordem. Ele queria sair comigo, mas tinha srias dvidas sobre isso. Convidou-me para sair, mas no passaria disso. estava interessado em
mim, mas com reservas.
Ou talvez quisesse simplesmente ver um peixe-boi.
Ainda assim Lembrei-me de que havia o fato inegvel de que ele dissera que eu era bonita.
Comecei a sair de r, mas alguma coisa me chamou a ateno. Alguma coisa moveu-se no velho Cadillac: eram
cabelos brancos. Sam ajoelhou-se perto da janela do motorista.
podia vloatravs de um emaranhado de arbustos espinhosos. Falava com algum dentro do carro balanando a
cabea pacientemente, repetidas vezes. ele abriu a
porta e estendeu os braos para dentro. Em seguida retirou-os devagar.
Dei marcha  r no carro por alguns metros para que ele pensasse que eu estava partindo.
Ento, esperei para ver quem ia sair daquela carcaa velha e enferrujada.
Pouco tempo depois, ele apareceu. Era um homem velho e frgil, com o corpo curvado como o cabo
de uma bengala. O brao direito de Sam estava em volta de seus
ombros e a mo esquerda segurava a do velho.
Eles caminhavam devagar e com dificuldade em direo ao trailer. Ele tinha tufos de cabelos brancos, parecidos com
penugem, como os de Einstein, quando despenteados. Ainda
no tinha certeza, mas tive a estranha impresso de ter visto um
papagaio verde e amarelo empoleirado entre seus cabelos.
Na entrada do trailer, Sam olhou por sobre o ombro e percebeu
que eu ainda estava l e sorru. A porta fechou-se.
talvez, pensei, fosse melhor eu visitar um oftalmologista.
No tivemos aulas na segunda-feira por causa da greve
dos professores. Passei o dia esperando em meu quarto, olhando
para o relgio. A cirurgia de Izzy estava marcada para ser de manh
Por volta das duas horas eu estava um trapo. Ela preveniu-me
que levaria muito tempo, mas isso no diminuiu minha
preocupao.
s trs horas, Sara espiou pela porta.
- pode ser que sua me tenha esquecido de lhe telefonar,
disse. - Voc podia ligar para ela.
Balance a cabea negativamente. No queria lhe telefonar para ficar
sabendo que algo dera errado. Era melhor aguardar
ficar sabendo que algo dera errado. Era melhor aguardar com
esperanas do que ligar e perd-las.
- Quer jogar basquete um pouco? - perguntou Sara.
- No, obrigada.
Sara encostou-se na porta mordendo seu lbio inferior
Iparecia preocupada. Ela adorava Izzy, provavelmente porque
A tratava como uma pequena adulta.
- Sabe - disse Sara -, posso ligar para a Rosa e perguntar algo.
Ela deve saber. Voc quer?
- Obrigada. talvez daqui a pouco. Vamos esperar mais uma
hora.
Sara virou-se, e ento parou.
- Al? Voc... voc rezou ou coisa assim?
- Entendo que a orao d mais resultado se voc for religioso.
- Nossa famlia  religiosa?
- Somos agnsticos.
Sara franziu as sobrancelhas.
- O que  isso?
- Significa que a gente salva a nossa pele.
- Sinto como se eu devesse rezar.
- Voc pensou na Izzy?
Ela assentiu.
- O dia todo e praticamente toda a noite passada.
- Isso  muito bom.
Ela ficou por perto mais meia hora, esquecendo por um
momento, suponho, que me odiava. Finalmente, desistiu.
- Estarei l fora, jogando basquete.
- Est bem. Se eu souber de alguma coisa, lhe conto.
Alguns minutos mais tarde o telefone tocou. Minha mo
tremia quando tirei o fone do gancho. Era a Rosa.
As palavras estavam embaralhadas, uma mistura de espanhol com ingls, soluos e pausas. A Laureen est muito abalada...
uma parte do tumor afetou... o crebro permanentemente... 
muito arriscado... no diga...
- O qu? - sussurrei. - No diga o qu?
- No vamos contar-lhe - disse Rosa. - Para que contar?
Queremos que seja feliz. Ela merece ser feliz durante o tempo que
lhe resta, Alison.
Agradeci a Rosa e coloquei o fone no gancho.
- A gente faz o que pode - dissera Sam.
- Deveramos ter rezado - disse para mim mesma.

5. Meus braos ficaram arrepiados
As visitas a Izzy foram proibidas. Ela ficou na UTI por
dias e, mesmo depois de ter sido transferida para uma ala comum,
Laureen disse que as visitas poderiam exauri-la. Reuni todos os
amigos e mandamos um desses cartes enormes de "plena recuperao" com milhares de assinaturas.
Depois da primeira semana, Laureen deixou que Izzy falasse
comigo pelo telefone de vez em quando. Na maioria das vezes
estava atordoada por causa dos sedativos e eu nunca saba
dizer. Era como se a ligao estivesse ruim.
Evitei falar sobre Sam. No que houvesse muito a dizer. No o vi,
desde quando ele, mais ou menos, me convidou para sair,
Ele foi  escola esporadicamente - trs dias sim, quatro dias
no. No podia entender como ele conseguia fazer isso e
ainda no fora suspenso.
Nas poucas vezes em que o vira nos corredores olhamos
timidamente um para o outro como se fssemos estranhos.
s vezes trocando um "Oi, como vai?". comecei a me perguntar
se tudo no passara de alucinao minha. Ele convidou-me
para sair? Ser que disse mesmo que eu era bonita?
Na primeira semana, criei coragem depois que sa da
sala de estudos e perguntei-lhe se ainda queria fazer aquela
maravilhosa
excurso para ver o peixe-boi. Ele respondeu que no iria
naquela semana porque tnha muitos compromissos: trabalho e
outras coisas mais; realmente sentia muito.
Ele tinha aquele jeito retrado que os caras tm quando
sabem que esto sendo tolos, mas, simplesmente, no consegui
evitar.
Normalmente, ficaria remoendo a rejeio por meses a fio,
tentando imaginar o que eu fizera de errado. Mas, com a Izzy distante num hospital, sendo bombardeada com radioterapia, isso
parecia no ter tanta importncia.
Numa tarde ensolarada de sbado, trs semanas depois do
dia em que lhe dera carona, eu estava no celeiro com Snickers
quando ouvi um rudo baixo e rouco como o de um cortador de
grama a distncia.
Sara veio correndo me buscar.
- Tenho certeza de que voc vai achar to difcil de acreditar
quanto eu - disse ela - mas h um cara aqui querendo v-la.
Coloquei de lado a escova com que estava limpando
Snickers e enxuguei a testa molhada de suor.
- Sam? - perguntei, praticamente gaguejando seu nome.
Sara balanou a cabea afirmativamente.
- Vocs esto... namorando? - perguntou, incrdula.
ela - No. No estamos coisa alguma. - Soltei a escova no balde.
- O que voc disse a ele?
- Que iria ver se voc podia encaix-lo em sua agenda lotada. Por falar nisso, aqui est uma dica til para um programa de
dia dos namorados: brincar de cavalinho  uma boa pedida.
Pensei em trocar de roupa. Afinal de contas, acabara de
limpar o estbulo. Estava usando botas, uma cala velha de montar remendada e uma miniblusa justa e sem mangas, que comprei
numa liquidao.
Mas, antes que pudesse decidir o que fazer, l estava Sam,
andando ao lado da casa em direo ao celeiro. Ele usava uma
cala jeans velha e justa e uma camiseta manchada de graxa. No
parecia, exatamente, ter acabado de tomar um banho de loja.
Ainda assim, se considerssemos o aperto em minha garganta
como um sinal, diria que sua aparncia suja deu resultado.
- Ol! - disse, de p na soleira da porta. Seu corpo alto projetava uma sombra longa e delgada.
- Acho que eu deveria ter ligado antes, mas acabei de consertar a moto. E, sabe, queria contar para algum - disse ele,
enganchando os dois polegares nos bolsos da cala. - E voc  a
pessoa que me veio  cabea - continuou ele.
- Parabns! - disse, incrdula. - Como voc soube onde
eu morava?
- Catlogo telefnico - confessou e deu-me aquele
riso de lado.
Sorri, nervosa. Por que ele estava l justamente quela hora?
- Posso dar uma volta? - perguntou Sara.
- Mame vai adorar - respondi - quando eu lhe telefonar para a
clnica e lhe contar que voc foi morta na estrada.
Sam levantou um pouco a cabea e abaixou os culos.
- Sou um bom piloto, Alison. E tenho um capacete
- Eu vi voc dirigindo - contestei.
- Aquilo foi uma obra de Deus - Sam disse. - Ou quem
sabe da Firestone.
Desamarrei Snickers e leve-a de volta ao estbulo.
- E a? - pressionou Sara, seguindo-me. - Vocs vo...
Olhei para trs. Sam estava me observando com os braos
cruzados, parecendo muito seguro de si. Um olhar que, naquele
momento, compreendi, poderia ser muito preocupante.
- Pensei que fssemos ver alguns peixes-bois h duas semanas,
- disse, ocupando-me com um carrapicho na crina de Snickers
- Sinto muito por isso. Realmente tive problemas.
problemas. O que significava isso? Onde ele estivera
aqueles dias?
- Que espcie de problemas? - perguntei.
- problemas pessoais - hesitou -, familiares.
Familiares. pensei em todos aqueles boatos. Visualizei
quartos escuros, cheios de fumaa de cigarro, onde o chefe
falava em voz baixa e com sotaque e o tema do filme era O
che fo tocando ao fundo.
Ento, pensei naquele velhnho que tinha um papagaio
empoleirado na cabea.
- Apenas uma hora - disse Sam. - prometo que atrago de
volta em uma hora.
Sara chutou mnha canela.
- Por favor, voc no tem muta escolha, Al - falou alto o
suficiente para que Sam ouvisse.
- Precisava tomar banho primeiro - disse, nervosa; no
para a Sara nem para o Sam. Acho que eu estava falando mesmo
era para Snickers.
- Acabei de sair do trabalho. Estou coberto de graxa e suor.
Vamos dar vexame um pro outro.
- A est um lindo quadro!
Olhei para Sam.
- No vou com voc, a no ser que use um capacete tambm.
- tudo bem. Sem problemas.
Fechei a porta do estbulo.
- Se papai perguntar, diga-lhe que fui  biblioteca com a
Gail e lhe pago um dlar por isso.
- por que mentir? - Sam questionou.
- O qu? Voc no tem pais? - perguntei. - Porque voc
tem uma moto e meu pai no o interrogou por trs horas para
saber se suas intenes so boas. - Voltei-me para Sara: - Se
mame perguntar, diga-lhe a mesma coisa e eu lhe darei cinco.
- Mais para a me? - Sam perguntou.
- papai acredita em qualquer coisa - explicou Sara.
- Oh, e se a Iz telefonar? ela ficou de ligar esta tarde.
- diga-lhe a mesma coisa, est bem?
- Por qu?
- Apenas faa isso, est bem?
- Dez pela Iz. Ela  mais esperta que mame.
- Dez? - espantei-me.
- Por que voc est mentindo para a Izzy? Parece que voc
no quer contar-lhe sobre "ele".
Sa esbarrando nela.
- No tenho que dar conta dos meus atos, Sara. Apenas faa
o que lhe pedi. Voc est recebendo mais que o salrio mnimo.
- Como est a Izzy? - Sam perguntou.
- Ela est fazendo radioterapia e alguns exames psoperatrios. Estar de volta na tera-feira.
No lhe disse que a cirurgia no fora bem-sucedida. No disse
a ningum, exceto a minha famlia. No cabia a mim faz-lo.
Fomos em direo  sua moto estacionada na entrada de carros.
- Ela ficar bem? Quer dizer, sozinha em casa?
especulou enquanto eu colocava o pesado capacete na
cabea.
- Sara? - a pergunta pareceu-me estranha e
me chocou. - Nossos vizinhos do uma olhada para ns e meus
pais estaro em casa em poucos minutos. Ela ficar bem.
Mas, quando coloquei os braos em volta da cintura de Sam,
vi Sara debruada sobre a grade da varanda, pequena e sria
para dizer: "Espere, no posso deix-la sozinha", mas no
Fomos para bem longe e em grande velocidade.
Senti o ar pesado e mido da tarde at que meus braos ficaram
arrepiados e eu tremia encostada nas costas do Sam. Fechei os olhos
e deixei que entrasse em minha mente o barulho das
lembranas da moto do Sam voando pelos ares naquele dia
quente, na plantao.
Poderia morrer bem aqui, pensei, um monte de destrossos entranados, mudos num campo cheio de poeira. Poderia
estourar
outro pneu. A moto pode pender apenas uma polegada
para o lado e derrapar. Ou virar na estrada meia mlha mais adiante.
No era por causa da moto ou porque no confiasse em Sam. Eu poderia morrer em qualquer lugar,
quando escorregasse numa tampa de um pote de iogurte numa lanchonete, ou casse de Snickers quando estivssemos galopando.
 possvel que Sam pensasse a mesma coisa, em
secreto dentro dele.
Mas Izzy realmente podia morrer.
O tumor no foi totalmente extirpado. pesquisara
nos mesmos lvros que ela, por isso eu sabia o que aconteceria
poderia ser fatal. Nem sempre,  claro, mas nunca se sabe.
quando viramos uma curva aberta,
tive a sensao de que a terra nos arrastava. Foi como se estivesse numa
montanha-russa, mas sem a sensao
desta. tentei me concentrar no zunido eletrizante.
Devia ser esta a sensao que se tem diante da
morte. Deveria ser isso que Izzy estava sentindo, provavelmente.
Tentei agarrar-me a esse pensamento, mas ele saiu da minha
mente. tudo o que sentia era uma grande sensao
apenas um vazio no lugar de preocupao. Deslizando por aquela
estrada senti que Sam e eu viveramos para sempre e me odiei por
estar me sentindo assim. Indiquei o caminho para um lugar fora
de Siestra Key, onde os peixes-bois costumavam se juntar. Ele estacionou a moto e caminhamos at a extremidade de uma enseada
rasa e nos sentamos na grama. O sol queimava nossos ombros.
- Os peixes-bois alimentam-se desta grama que existe por
aqui - disse. - Eles comem cerca de 50 quilos de vegetao por
dia. Observe, voc ver suas cabeas emergindo. Vi a me e seu
filhote aqui outro dia.
Sam balanou a cabea, olhando fixamente para a gua
calma.
- H uma grande movimentao de barcos, por isso no
tenha grandes esperanas - acrescentei. - De manh,  melhor.
- Pobres bichos! No tm a mnima chance com todos esses
barcos por aqui, matando-os. Os desgraados passam em grande
velocidade e as hlices cortam seus corpos.  to triste! Dois meses
atrs, dois filhotes foram levados para o Sea World depois que sua
me foi atingida. Um deles morreu - franzi a testa. - Veja a
placa. Isto  uma reserva, mas mesmo assim eles continuam apostando corrida por aqui - acrescentei, e logo me dei conta de que
estava fazendo discurso.
- Desculpe-me. Fico meio irritada.
Sam deitou-se de lado.
- Gostaria de poder fazer isso.
- O qu?
- Ficar entusiasmado com alguma coisa.  uma ddiva.
Olhei para ele.
- Voc est fazendo gozao comigo?
- Estou falando srio - respondeu Sam, parando de falar.
Depois apontou. - Olhe ali, o que  aquilo?
Segui seu olhar.
- Parece, mas no . ; uma garrafa de leite. O que voc quis
dizer com essa histria de ficar entusiasmado?
Ele sorriu para mim, aquele tipo de sorriso misterioso.
- Admiro pessoas como voc, Alison. Pessoas que acham
que sabem aonde querem chegar, que querem mudar as coisas e
ser alguma coisa. Deve ser legal acordar e dizer "vou fazer x
z hoje, e isso vai ser importante".
- E pode ser de outro modo? O que voc diz quando acorda?
- Bem, deixe-me ver. Hoje acorde e disse: que diabo c
ser hoje? Tenho de trabalhar? Ento lembrei-me de que tinha
atarde livre e minha moto estava pronta.
Ele tirou os culos de sol. Seus olhos brilhavam como a lente
escura. E continuou:
- A, eu disse: vou ver a Alison hoje. E talvez isso signifique
alguma coisa.
Embora tenha gostado do seu jeito de dizer essas coisas,
fiquei um pouco assustada tambm. Ento virei de costas,
fechei os olhos e deixei o sol aquecer as minhas plpebras.
- Bem, o que voc quer fazer? - perguntei, depois de algum
tempo.
- Voc quer dizer, quando for adulto?
- Sim. No prximo ano ou daqui a cinco ou dez anos.
-  muito tempo, Alison. No consigo pensar num
tempo to distante. Talvez nem esteja mais aqui, quem sabe?
- Isso  loucura. Por que voc se interessa? Em que voc  bom?
Ele no respondeu. Abri os olhos e descobri que ele
estava rindo de mim.
- Desculpe-me - disse ele. -  uma pergunta capciosa.
- Em que mais voc  bom? - insisti, sentindo
meu prprio corpo, o sol quente no pescoo e nos braos descobertos
de um jeito que eu nunca sentira antes.
- No tem muita coisa - ele pareceu aborrecido.
- No, cite alguma coisa - sua indiferena estava me irritando.
- Todo mundo tem habilidade para alguma coisa
pode ser um bom mecnico, um bom piloto de moto
apague este ltimo. Mas deve ser bom em matemtica, bom de
garfo ou coisa assim. Diga-me que sabe a letra da msica-do
filme Ghost ou que pode parar a lmina de um ventilador com a
lngua. S quero que voc diga alguma coisa, Sam.
Ele suspirou, devagar.
- Digamos - disse ele, como se tivesse acabado de descobrir - que eu seja bom em cuidar das pessoas.
- Mas voc no  bom em cuidar de si mesmo - retruquei.
- Por que voc no usa capacete? Por que voc fuma? Quero
dizer,  tolice. Voc tem desejo de morrer? Ou voc est, apenas,
fazendo o tipo do cara mau e desligado, com sua Harley?
Ele pareceu-me verdadeiramente surpreso com a emoo em
minha voz.
- Desejo de morrer - repetiu. -  uma teoria interessante,
mas no sou to complicado. Tenho uma Harley porque gosto
dela e  mais barato do que uma Viper - suspirou. - E, quanto
a capacete e cigarros, acho que sejam apenas maus hbitos.
, - Por que voc no larga, ento?
- Acho que  porque nunca ningum me pediu.
- Estou pedindo.
Ele sorriu. Foi um sorriso largo e leve daqueles que formam
uma curva para cima no canto da boca.
- Est bem, ento.
Ele estava fazendo gozao comigo novamente:
Claro - Como? Voc s vai fazer a coisa certa porque algum,
completamente estranho, lhe pediu. Que tal faz-lo por voc?
- No sou o que voc chamaria de parte interessada.
Sentei-me, frustrada, apertando uma folhinha de grama. Ele
era um mistrio para mim, to misterioso naquele momento
quanto fora na poca dos boatos no banheiro.
- Voc  realmente irritante - disse. -J que estou refor mando voc, por que no pra de faltar s aulas tambm?
- No posso. Desculpe-me.
- Por qu?
- Acho que estou vendo um - e sentou-se tambm. - L,
perto da doca.  grande, feio e redondo? Como uma morsa?
-  isso mesmo. Mas no estou vendo nenhum.
e Ele assentiu:
- Ento, eu vi um peixe-boi.
- No viu nada. Voc s estava querendo mudar de assunto.
- No, eu vi. Parecia o Fred Flinstone vestido com um
terno molhado. Exatamente um peixe-boi. Mas por que deveria
me importar se restam poucos peixes-bois?
- Porque - respondi com firmeza -, apesar de pertencer  espcie mais inteligente do planeta, somos ns que estamos matando.
- E se no final das contas no der certo? E se voc
falhar? Por que fazer, ento?
- porque precisamos tentar.
- Certo - ele disse. - Certo, isso eu entendo.
Ele surpreendeu-me ao tocar a minha mo.
Ambos olhvamos para a gua com receio de que nossos
olhares se cruzassem.
Ficamos sentados l, assim, por muito tempo, de
mos dadas. O mundo parou. Ficamos apenas ns
e o sol. Era uma sensao como aquela doce agitao
uma tempestade, quando voc sente que alguma coisa est
a mudar, e tudo que tem a fazer  esperar.
Procuramos os peixes-bois, mas eles estavam
escondidos na vegetao escura, esperando um momento
para aparecer. Esperando, suponho, como ns estvamos
para ver o que o mundo nos reservava.

6. Beijada somente duas vezes
Depois de algum tempo, fomos de moto a uma cabne telefnica num posto de gasolina. Olhando o relgio, Sam explicou
que precisava fazer uma ligao.
Fiquei sentada na moto olhando-o enquanto discava. Ele
virou-se de costas furtivamente. fiz esforo para ouvir: seguro Morgan... polcia... - ouvi. Sons de voz abafada e nervosa. Quando eles estiveram l?... Volto logo. 
Obrigado.
"Polcia". Esta palavra trouxe-me de volta  realidade.
Lembrei-me dos boatos. O que, realmente, eu descobrira sobre
este cara com quem ficara de mos dadas por meia hora, e por
quem, com certeza, estava apaixonada?
Quando voltou, Sam parecia arrasado.
- Estou com problemas. Tenho de lev-la para casa.
- O que aconteceu?
- Nada - respondeu ele, pegando o capacete.
- Voc tem de me levar para casa por nada?
- No  problema seu.
- Se voc me contar, talvez possa ajud-lo.
- No  problema seu.
Era como tentar tirar leite de pedra. Ele no ia me contar.
- Est bem - disse. - Esquea. Leve-me para casa.
Ele colocou o capacete, subiu na moto e acelerou, nervosa mente, me pareceu, mas, em se tratando de uma Harley, era difcil dizer.
Bati em seu ombro:
- Diga-me apenas sto - grite. - Voc roubou ou no uma
loja de convenincia?
Subitamente a moto silenciou e parou. Ele olhou para trz
- O que significa isso exatamente?
- No.  o programa de proteo a testemunhas, certo? Seu
pai  uma espcie de chefe de quadrilha de traficantes e voc
 testemunha principal.
por trs de sua mscara brilhante, pude ver um largo sorriso
- De onde voc est tirando essas coisas?
- Da escola. Boatos. As pessoas falam e eu ouo.
- Por que est aqui, se  isso que voc pensa? por que concordou em sair comigo? No ficou com medo que eu a levasse
ao Eleven mais prximo, para talvez pedir uma Fanta uva ou devorar dois cachorros-quentes e, em seguida, sair em disparada?
- No fiquei com medo - disse, recuando subitamente.
Na verdade, sabia que voc no era nada disso.
Ele cruzou os braos. Fiquei olhando os plos escuros de seus braos.
- Baseada em qu? - perguntou.
Olhei para a frente.
- Voc beijou minha gua e carrega Kleenex no bolso.
Ele encarou-me, balanando a cabea:
- Voc  uma garota muito interessante, Alison. Um pouco
estranha, mas muito interessante.
Novamente, acelerou a moto, virou-a e ficou sentado l
um bom tempo, observando um raurus cinzento que subia lentamente pelo elevador da garagem automtica ali adiante.
- Vamos - disse, finalmente, relutante. - H uma pessoa
que eu quero que voc conhea.
Quando subimos a estradinha que levava ao trailer, o velho
encontrava-se sentado no banco do motorsta do Cadillac vermelho.
O teto estava abaixado. O papagaio pousava em seu ombro.
Pensei ter visto duas mulherezinhas de cabelos brancos sentadas
no banco da frente. S percebi que no eram pessoas quando paramos
ao lado do carro. Eram cachorros poodles gigantes.
- E a, garoto! - falou uma mulher de meia-idade, com
acolchoado espesso de pregas marrons, que apareceu na porta
do trailer.
Sam estacionou a moto.
- Volto j - disse-me.
Ele e a mulher conversaram em voz baixa. Ouvi a palavra
"polcia" novamente. O velho agarrou a direo do Cadillac e
ficou girando-a como o capito de um veleiro veloz faria. Os
cachorros e o papagaio olhavam pela janela atentamente. Segui
seus olhares, mas tudo que pude ver foi um cercado coberto de
ervas daninhas. Bem distante dali, um cavalo velho, to desgastado e arruinado como o Cadillac, estava pastando.
Desci da moto e tirei o capacete.
- Que mulhero - disse algum, dando um assobio para
chamar a ateno. Ouvi uma voz esganiada que no parecia a de
um homem nem mesmo a de uma mulher.
Dei uma volta ao redor do carro. Ningum prestou ateno.
- Quer carona?
Desta vez, era, realmente, o velho. Olhei para Sam em busca
de ajuda, mas ele estava muito concentrado na conversa.
Aproximei-me do lado da porta do motorista, devagar. De
perto o homem era menor. Seus olhos, de um azul semelhante ao
de um jeans desbotado, eram fundos e empapuados. Ele usava
uma vistosa gravata-borboleta vermelha e uma camsa de flanela
verde xadrez, de mangas largas que caam sobre seus braos finos.
Na cabea usava um bon de motorista, de couro. Ele parecia
muito feliz em me ver.
- Que mulhero!
Era o papagaio, compreendi, vagamente alivada.
- Para onde voc vai? - o homem perguntou.
- Ah, bem, eu moro em Fruitville - comecei a dizer.
- Posso lev-la at Vegas. Back, Forth, dem lugar para a dama.
- Ele estalou os dedos e os dois poodles chegaram um perto do
outro, em perfeita harmonia. Havia mais dois cachorrinhos viralatas engraadinhos no banco de trs. Um deles usava um
chapeuzinho de palha na cabea.
Olhei para Sam. hstava se despedindo da mulher. Ele olhou me e entendi pelo seu olhar que logo estaria ali.
- Entre, entre. Vamos pegar a estrada. Voc joga vspora?
Dei a volta e abri a porta, obediente.
- No.
- Ah, e roleta? Este  o bilhete. Vermelho trinta e dois.
- Beije-me, mama - era o papagaio, novamente.
- Sam? - chamei, ansiosa.
O velho pisou no acelerador apesar de no haver chave na
ignio. Ele virou a direo e inclinou-se na curva imaginria. At
mesmo os poodles acompanharam.
- Segure, garota, vamos ver o que este carrinho pode fazer?
No sei por que, mas pus o cinto de segurana.
Ele mudou de direo, inclinando-se para outro lado.
Novamente todo mundo o acompanhou, exceto eu. Ele lanoume um olhar de reprovao e eu me senti culpada, como se estivesse desafiando as leis da fsica.
Nesse momento Sam apareceu. Eu suspirei, aliviada.
- Morgan, esta  Alison. Alson, este  meu av Morgan. de novo? Sem prestar ateno, Morgan virou a direo outra vez.
Ele agarrou a direo.
- Jane me contou o que aconteceu, Morgan. Voc achou as
chaves, no foi?
Morgan olhava para a frente.
- Vamos pegar a estrada e ver aonde vai dar.
- Voc j pegou a estrada - Sam disse. Sua voz estava levemente impaciente. - Voc andou umas seis milhas por a.
Pela primeira vez, Morgan parecia ouvir Sam.
- Ele fez quarenta e cinco.
- Muito mal. Voc estava na pista errada. - Sam levantou
um molho de chaves. - escondi estas para no haver problemas.
Agora vou ter de sumir com elas de vez. Voc me prometeu no
sair passeando de carro por a.
- Que mulhero - o papagaio falou para Sam.
Sam abriu a porta e esperou.
- Vamos fazer uns hambrgueres?
O velho virou para mim. Uma vez mais ele parecia
verdadeiramente feliz em me ver. - Voc  a garota dele?
- Ah, bem, no.
- O garoto precisa de uma. Seno pode virar um monge.
Ele olhou para Sam.
- Voc j beijou ela?
- Beije-me, mama - disse o papagaio.
- Cale a boca, Cha-Cha - ordenou Sam.
- Ela  uma gata - Morgan acrescentou.
O papagaio inclinou a cabea:
- Que bela...
- Cale a boca - disse Sam outra vez -, ou comeremos
"papagaiobrguer" esta noite.
- Leve-a para passear. Convide-a para ir ao cinema, para r
danar e ento beje-a - sugeriu Morgan, olhando-me, meio em
dvida. - Voc dana tuste?
- No, eu...
-  uma vergonha! Convide-a assim mesmo.
- Ento voc sai do carro e promete no pegar esta merda
de novo? - perguntou.
- Preste ateno no que voc fala dante de uma dama.
Sam respirou fundo.
- Alison, ns vamos sair algum dia, certo?
O velho revirou os olhos.
- Uma dana, alguma coisa chique.
- As pessoas no fazem mais esse tipo de coisa, Morgan.
Morgan girou a direo, amuado.
As bochechas de Sam ficaram coradas. Achei encantador.
- Est bem. Alison, vamos sair para danar em algum lugar,
algum dia no futuro.
Morgan e os quatro cachorros ficaram me olhando esperanosos.
- Est bem - disse eu, meigamente -, com certeza.
Morgan saiu do carro. Bem devagar, ele deu a volta at o
outro lado e abriu a minha porta. Quando sa, ele beijou minha
mo. Seus lbios estavam frios e secos.
Sam pegou seu brao.
- Vou levar Alison para casa, Morgan - disse, enquanto o
ajudava a entrar. Os quatro cachorros foram trotando atrs dele.
Encostei na capota quente. poucos minutos depois Sam saiu.
Ele parecia... no estar embaraado, exatamente, Diria que quase
aliviado. Ento comentou:
- No tem nada a ver aquela histria de roubo de loja de
convenincia, no ?
- Ele  mesmo seu av? - perguntei. - Onde est
o resto de sua famlia?
- De volta para Detroit. Desci para cuidar de algumas coisas
por uns tempos - sorriu. - Acho que deveria t-la avisado..
ele  meio imprevisvel.
- Gosto dele. Nunca ningum beijara a minha mo antes.
Pense nisso, nunca antes um papagaio fizera charme para mim.
- H dias em que ele est bem, outros no. Na verdade
 um dia muito bom. Ele est bem lcido.
Fiquei imaginando como sera um mau dia.
-  por causa dele que voc falta s aulas de vez em quando?
Sam balanou a cabea, mpassvel.
- Sm. Por isso e algumas vezes por causa do trabalho.
acrescentou, encolhendo os ombros.. - Sinto muito, toda
a confuso sobre a dana.
- Tudo bem. Voc foi coagido.
ele hesitou.
- Acho que vai haver algum tipo de baile, no vai? acho
que vi um cartaz sobre isso - namoradas ou coisa assm.
- Dia dos Namorados.
- No sei danar - comentou ele.
- Nem mesmo dois pra l e dois pra c?
- Mesmo assim, se voc quiser e as coisas estiverem
indo bem, poderamos, sabe, ir. .. fazer gozao com as outras pessoas
que estiverem danando.
Olhei em direo ao trailer. Morgan estava de p a
porta de tela. Parecia uma sombra cinzenta. O papagaio
estava em seu ombro.
- Gostaria - disse, e minha voz tremeu s um pouco.
- Est bem, ento - afirmou Sam.
- Est bem.
Ele chegou mais perto. Notei a pulsao contnua
de uma vea em sua testa. Notei um pequeno tremor em seu lbio
quando se inclinava em mnha direo. Vi suas pupilas
eSCurecerem.
Fechei os olhos. No queria ver. queria sentir.
- Beije-me, mama - algum disse. E eu o beijei.
Ainda Naquela noite, izzy telefonou. Ela estava muito animada de
voltar para casa e ir direto para a escola. Os mdicos estavam
todos recomendando que ela no exagerasse nas atividades e no
tivesse pressa, mas no podia esperar. Prometi-lhe que iramos sair
e comprar muitos lenos elegantes, echarpes e turbantes.
Pensamos se seria apropriado uma daquelas perucas de cabelos
encaracolados, cor-de-rosa. Engraado para ns,  claro. E se
hoje ningum mais entendesse a brincadeira?
Queria contar-lhe sobre Sam. Juro que queria.
tinha sido beijada somente duas vezes antes, uma vez numa
festa na praia (daquele beijo com excesso de saliva, lngua muito
agitada e que deixou um gosto de Blistex na boca) e outra vez no
acampamento de cincias, por um cara que nutria uma paixo
daquela por mim, sem lngua, com lbios secos e deixara um gosto de
Bubblicious de framboesa.
Mas este foi realmente um beijo de verdade. Toda vez que eu
me lembrava, ficava trmula e tonta e o corao parecia querer
sair pela boca.
Parece terrvel, eu sei. Mas no era.
Sentia-me como se tivesse viajado a um lugar desconhecido.
Como se estivesse nas nuvens, se  que me entende.
Deveria contar a Izzy - fiquei pensando enquanto falva mos sobre filmes pornogrficos, disponveis na sala de televiso
do hotel (ela teve coragem de pedir um?), e a rotina tediosa e horrvel da radioterapia?
Deveria ter-lhe contado desde o comeo. Deveria ter dito:
Izzy, algo mgico aconteceu entre o Sam e eu naquele dia, na
plantao. Mas no o fiz, porque sabia que no era isso
que ela
queria ouvir naquele momento.
No que eu no soubesse que o adiamento poderia tornar as
coisas piores. Eu suportara mos suadas, um beijo to rpido
quanto o estouro de uma bola de chiclete e uma declarao de
amor num papel amassado e perfumado, antes de arrumar coragem para dizer ao garoto do acampamento de cincias que eu j
estava comprometida (no podia simplesmente dizer que no
estava interessada, podia?). por que simplesmente no lhe dissera? - ele resmungara. o acampamento ia durar apenas
seis semanas e ele perdera duas e meia tentando me conquistar.
todas as outras moas bonitas j estariam comprometidas.
Enquanto Izzy falava sobre um assistente hospitalar q
gostava de garotas carecas, ouvi uma leve batida na janela perto
da cama. Abri a cortina. Pude distinguir a figura de Sam sob a luz
alaranjada do luar.
A moto estava atrs dele. Sabia que devia t-la desligaddo
E empurrado at ali, do contrrio meu pai j o estaria interrogando.
Sam apontou para o capacete que estava usando obedientemente.
tirou-o em seguida e sorriu embaraado.
- O fato  que - dizia Izzy ao telefone - esse assistente
se interessou por mim porque estou sem cabelos. Quer dizer,
quer ficar falando sobre a doena.
Fiquei rindo enquanto abria a vidraa. O ar quente e perfumado enchheu a penumbra. Sam colocou a mo na tela da janela.
Coloquei a minha mo sobre a dele. Ela se encaixou perfeitamente na minha.
- Que tolo! - disse, ao telefone.
- Ol! - sussurrou Sam.
- Ol! - respondi.
- Eu s queria v-la antes de dormir - disse.
Ficamos assim por algum tempo. Nossos dedos estavam
separados pela malha fria da tela, mas mesmo assim sentia o calor
da palma de sua mo.
depois, ele colocou o capacete, virou sua moto e empurrou-apelo gratnado em silncio.
pensei sobre o que ele dissera a respeito de sua habilidade de
cuidar das pessoas, e conclu que meus instintos no falharam
naquele dia na plantao.
- Esses caras! - disse Izzy. - Gostaria de saber se vou
encontrar um, algum dia. Principalmente agora.
- Voc vai - afirmei, suavemente.
- Voc acha?
- Ns duas vamos - respondi, vendo Sam ir embora.

7. Um tremor desceu pelas minhas costas
Decidi preparar uma recepo de boas-vindas, ainda que no
pudesse ser uma festa, para Iz. Apenas uma recepo, porque sua tia
foi categrica afirmando que no permitiria que ns, desordeiros,
levssemos Izzy a se exceder em alguma coisa. Gostava de Rosa, mas
sentia que ela exercia m influncia sobre a sobrinha. Ela era muito
religiosa e sabia que minha famlia passava as manhs de domingo
fazendo palavras cruzadas do New York Times, assistindo a David
Brinkley na televiso e comendo tortinhas doces quentes da padaria
Publix. Izzy no freqentava a igreja, tambm, e acho que Rosa me
considerava responsvel por isso; Uma vez, ouvi Izzy explicar-lhe
que pertencia a uma religio chamada cincia. No dia seguinte Rosa
deu-lhe uma caixinha bem embrulhada com um rosrio dentro.
Pelo visto, ela no entendera a mensagem. Ou, pode ser que sim.
Sua chegada estava prevista para tera-feira  tarde. Depois
das aulas fomos em caravana para o condomnio em Siesta Key,
carregados de bales, papel crepom e chapeuzinhos ridculos. Eu
convidara Sam. Ele disse que tinha de ver como estava o Morgan,
primeiro. Pareceu-me uma forma natural de faz-lo entrar em
cena-apenas um cara entre muitos, apenas um amigo, "Oh, por
falar nisso, Izzy, lembra-se do Sam?".
Algum ligou o aparelho de Cd em alto volume para
acabar com nossa ansiedade em relao a que dizer e como agir
diante de Izzy. Rosa, uma mulher gorda, por volta de seus
quarenta anos de idade, ficava pelos cantos como uma sombra
nervosa. Ela morava com a famlia de Izzy desde a poca em
que sara de Cuba e, embora trabalhasse fora o dia todo, como
administradora numa casa de repouso, me dava a impresso de
ser um apndice permanente do condomnio, como o piano:
de cauda da sala.
- Gostou dos bales, Rosa? - perguntou Gail, uma
das colegas de Izzy do time de basquete feminino. Izzy tinha
sado um ano antes, para dedicar mais tempo aos projetos
de cincias.
- Muito bonitos, sim - disse Rosa, no muito entusiasmada.
Ela olhou para as palavras de solidariedade escritas em
letras prateadas: "Breve recuperao. Bem-vinda, garota genial".
tambm um balo da Beavis e Butt, cedido por cortesia.
- Isto aqui estava precisando mesmo de um jeitinho.
expliquei, enquanto amarrava um balo numa cadeira.
- Sim - concordou Rosa, cujos olhos negros
comtemplavam toda aquela agitao.
- todo mundo coloca o chapu - acrescentou Carla,
colega da equipe de basquete que tinha mais ou menos dois
metros de altura.
Steve, o parceiro de fsica da Izzy - aquele tipo de cara
honesto e platnico -, subiu na banqueta do piano para
dependurar papel crepom.
- Pensei em raspar minha cabea - disse, aceitando
um chapu cor-de-rosa de Carla. - Sabe, em solidariedade a Iz. Soube
de pessoas que fizeram isso.
- Izzy iria achar uma verdadeira loucura.
- Realmente - concordou Gail. - Ela morreria se ns...
interrompeu a frase, consternada. - Quer dizer... quer dizer...
No sei por que nossos olhares se voltaram para Rosa que
deixou a sala abrupitamente.
- Est tudo bem, Gail - disse eu. - coragem. Vamos
fazer muitas bobagens. izzy  legal. Ela vai entender.
- Meu Deus, tenho tanto medo de estragar tudo. queria que
ela se sentisse bem - disse Carla.
- Mas, isso no vai acontecer se no agirmos naturalmente.
- contestei, e fui atender  porta.
Fiquei surpresa ao ver Sam de p, l, com o capacete no
brao. Ele trazia um ramalhete de margaridas amarelas
murchas escondidas num monte de jornal.
- Para a Izzy - explicou. - Ns temos aquele campo atrs
do trailer.
- Vamos entrar - falei.
Quando peguei as flores, nossos dedos se tocaram. Um
tremor quente e leve desceu pelas minhas costas. Estranho, pensei, que o mais leve toque pudesse provocar semelhante mgica.
Descemos o hall de entrada.
- Ateno, todos - disse eu, e minha voz soou um pouco
mais alta do que o normal. - Vocs conhecem o Sam?
Todos os olhares se voltaram para mim. As expresses variaram da surpresa ao choque total.
- Aquela  a Gail, aquela  a Carla... Bem, voc descobre o
resto sozinho - falei. - Deixe-me colocar estas flores na gua.
Larguei Sam, indefeso, e levei as flores para a cozinha. Gail
veio correndo atrs de mim.
- Como voc o conhece? - perguntou, curiosa.
- Conversamos algumas vezes.
- Ouvi dizer que ele  flho ilegtimo de Alec Baldwin.
- Pensei que fosse do Mck Jagger. - Achei um copo grande
e o enchi de gua.
- Atraente - disse Gail, roendo a unha do polegar esmaltado e vermelho. - Alto e atraente. Atraente, hein? Vocs esto
saindo juntos?
- Que sutileza? - exclamei, enquanto colocava as margaridas no vaso. Elas estavam com os talos murchos e inclinados por
causa do calor. Menti: - No.
No sei por que no disse que sim. Gail era uma boa
amiga. Mas Izzy era a minha melhor amiga e, se dissesse algo a
Gail antes de dizer a Izzy, certamente as noticias chegariam
deturpadas at ela. E ento poderia pensar que eu estava evitando falar-lhe sobre Sam por no ach-la pronta para isso.
mesmo se fosse verdade, no queria que pensasse assim.
quera que ela sentisse que nada mudara, embora isso no
fosse verdade.
Ouvimos um barulho na porta da frente. Miguel, pai de Izzy,
chegou primeiro, carregando um gato empalhado e uma mala,
Laureen veio atrs amparando Izzy.
- Que bom, Rosa! - Izzy gritou, abraando sua tia. festa de comes e bebes!
- Isabella - Rosa murmurou, soluando muito.
Estvamos todos olhando, tentamos parecer naturais.
parecia a mesma, embora no fosse. Ela estava usando um leno
azul amarrado elegantemente em volta da cabea, uma camiseta,
um colete bordado e jeans. Mas havia crculos azul-escuros
lustrosos abaixo de seus olhos e sua pele estava plida e flcida
como um balo vazio.
Izzy passou pelo grupo abraando as pessoas, hesitante, do
mesmo modo que fazemos quando cumprimentamos algum
com uma gripe prolongada. Quando ela se aproximou de ns,
comeamos a rir, depois a chorar e a rir novamente.
- D uma olhada - disse eu, rapidamente, apontando
a mesa da sala de jantar. - Trouxemos salgadinhos.
- Voc fez arroz crocante!
- Isabella - disse Laureen -, precisa ir com calma.
comeou a se alimentar com comida slida h apenas uma semana.
- Comi um nadinha no almoo - Izzy comentou. Quando
ela se aproximou da mesa, viu Sam pela primeira vez.
- Veja s! - ela disse, meneando a testa. - Olha quem est aqui!
- AliSOn me convidou - explicou Sam. - Trouxe-lhe
margaridas. Al colocou-as na cozinha, eu acho.
- Que gentil! - Ela pegou uma barra de arroz crocante.
levantou o dedo indicador. - No v embora. Voltarei.
Izzy voltou para a cozinha me levando junto com ela.
- Obrigada - disse, examinando as margaridas.
- De qu?
- Os chapus de festa, os bales, os... convidados.
- Ah, bem, realmente...
- Diga-me a verdade - interrompeu-me. - Eu pareo
aquelas coisas que as madames servem no almoo, no ?
Surpresa, Izzy Macarro ao Forno.
- Voc est linda, como sempre, sua boba. Apenas
um pouco cansada.
- Minha me est me deixando louca. Ela continua
me tratando como se eu fosse cair morta nos prximos cinco
minutos.
Izzy colocou a mo no n de seu leno.
- Quer ver? - sussurrou.
Balancei a cabea concordando, porque sabia que ela queria
que eu visse.
No foi a cabea nua que me chocou, mas o significado cruel
da inciso vermelha escura. At aquele momento, a doena da
Izzy tinha sido uma abstrao. DE repente percebia que era real.
Forcei-me a olhar a cicatrz do mesmo moudo que ela tinha de
olh-la no espelho, todas as manhs.
- Grotesco, no? Desculpe-me. Foi m idia - acrescentou,
recolocando o leno.
- No, realmente - disse rapidamente. - Voc parece uma
Shaquille ONeal branca, de bobs.
Izzy riu.
- Meu Deus, sent sua falta. Sabia que voc me trataria como
eu sou. - Ela inclinou-se para cheirar as margaridas j murchas.
- Espero que isso no seja um pressgio - ela disse,
amparando com a mo uma flor murcha.
- Gentil, no foi?
- Muito.
- Foi uma idia brilhante convid-lo, Al. Eu preciso me distrair. Acho que necessito ter um passatempo, de qualquer forma.
Estava pensando em colecionar selos, mas talvez seja melhor colecionar garotos. Izzy deu uma espada l embaixo no hall.
- Ah! l est um lindo espcime - disse ela, voltando-se
para mim. - O Sam disse alguma coisa til? como, por exemplo, se
ele j se interessou por garotas doentes alguma vez?
- Na verdade...
Procurei pelas palavras, mas no consegui ach-las.
- Na verdade, ele perguntou por voc vrias vezes - falei.
AO menos isto era verdade.
-  minha chance. Deseje-me boa sorte.
Fiquei olhando-a sair. Laureen entrou na cozinha. Seus cabelos pretos e curtos mostravam-se opacos e despenteados, seu vestido
feito sob medida, azul-marinho, estava amassado. No se mostrava
elegante como costumava ser. Ela colocou um brao
a minha volta.
- Obrigada por tudo isso, Alison. Ela precisava mesmo
de uma injeo de nimo.
- Ela parece bem - disse eu.
Laureen mordeu o lbio inferior, pintado com baton
que j estava manchado e rachado. Ela fez um sinal para que
seguisse at o quarto principal. Quando descemos, notei
Izzy conversando com Sam. Ela tocou seu brao ligeiramente
inclinando-se para ele.
O quarto de estilo antigo estava decorado com mveis
de vime e um tecido colorido que dava um toque tropical. Eu
fiquei de p perto das janelas grandes olhando para o golfo
acinzentado.
- Ela no perguntou. No  estranho? - a voz deLa
era um sussurro. -Estava pronta para mentir depois da cirurgia,
mas ela nunca perguntou. O mdico entrou e disse que tudo parecia bem, que eles tinham feito o que podiam e ela deixou
por isso mesmo. Fiquei to aliviada! Era como se...
- No fosse a Izzy.
- Sim. ela chegou mais perto e apertou meus ombros
- Voc entende, no ? Por que estamos dizendo para
todo mundo que eles tiraram todo o tumor e que tudo vai dar certo?
- Entendo.
Houve uma leve batida na porta. Miguel entrou no quarto
e fechou a porta. Ele era alto como a Iz. Ela herdara dele seus
cabelos negros e os clios espessos.
- Voc disse a Alison? - perguntou ele.
Laureen balanou a cabea.
- Queremos que todos os seus momentos sejam felizes,
sabe? - ela disse a mim, mas tambm para si mesma, eu
acho. -  melhor assim. com certeza.
- Claro que  - disse Laureen, vivamente.
e l do quarto pude ouvir a risada meldica e exagerada
de Izzy, vinda do hall.
- Qual seria a vantagem de dizer-lhe a verdade? - perguntou Miguel.
- E se ela descobrir sozinha? - perguntei, gentilmente. Vocs sabem como ela . Ela no aceita tudo com facilidade. Vai
procurar informaes nos livros mdicos novamente e pela
Internet a noite toda. E se ela j estiver desconfiando?
Laureen esfregou os olhos. Ela inclinou-se chegando perto
de mim. Seus dedos apertavam tanto meus ombros que pude sentir suas unhas. Laureen usava Chanel, o mesmo perfume que Izy
usava quando ela no estava por perto.
- Ela tem somente dois ou trs meses de vida, Alison - sussurrou. Quando se afastou, pude ver pelo intenso calor de seus
olhos que no lhe restavam mais lgrimas. - Talvez menos, eles
no sabem. O tumor estava mais avanado do que pensavam.
nesse pouco tempo de vida, podemos nos esforar para que ela
seja feliz.
Miguel pegou minha mo e ficamos l, em silncio, olhando
para o mar. Risos vinham da sala. Uma velha cano dos Stones
explodiu no aparelho de CD. Apoiava-me nos pais de Izzy e eles se
apoiavam em mim. Entendi que eles estavam se perguntando por
que eu, a filha de outra pessoa, deveria viver e a filha delEs no.
- Sinto muito - disse. porque foi tudo o que consegui dizer
e porque me perguntava a mesma coisa.
No dia seguinte voltei  escola. Depois de certo tempo,
comeamos a pegar o jeito de lidar com uma pessoa com cncer.
Afinal, era como lidar com uma pessoa sem a doena.
Isto , a no ser que voc j saiba do diagnstico e ela no.
Ou talvez saiba, mas voc tem receio de perguntar e ela no
parece ter pressa em contar.
No que Iz estivesse evitando o assunto ou coisa assim.
Conversvamos muito sobre o medo por que passara, e como era
duro estar doente. Mas nos referamos ao medo de modo geral e
no ao da morte provvel.
Procurava distra-la. Queria estar por perto quando ela
quisesse conversar. tentava feito louca perceber o que ela desejava
Ainda no tinha conseguido lhe falar sobre Sam.
tentei dezenas de vezes, mas ela parecia to apaixonada por ele
depois da festa, que no tive coragem de mago-la. Que importava
se ele me convidou para ir ao baile
dos Namorados? Falar sobre isso agora parecia-me muito
irrelevante diante de tudo o que ela estava passando.
Na quinta-feira  noite, eu acabara de falar com Izz
ao telefone quando ele tocou novamente. Era Sam.
- apenas queria saber se vamos mesmo ao baile - disse
pude perceber a timidez em sua voz, o que me fez sorrir.
- parece que voc est preocupado.
- No - respondeu ele. - Nada srio.
Por mim, continuaria ouvindo aquela voz a noite toda. Ela tinha um tom leve e insistente,
como o vento soprando as folhas das palmeiras perto da janela ou
aquela breve sensao de encantamento provocada por um beijo
que trocamos.
- Como est o Mmorgan? - perguntei.
- No muito bem. Andou tendo alguns problemas
essa semana. Mas vou resolv-los. Minha vizinha Jane vai cuidar
dele para mim no sbado  noite - parou. - Bem...
- Eu preciso desligar - disse eu. - Fiquei conversando
com a Iz ao telefone um tempo.
- Falar na Izzy, como ela est? Achha que ter companhia para sbado?
- No. gostaria que fosse - pigarreei. - Acho que ela
acha que os garotos tm receio de se aproximar.
-  uma pena. ela  uma garota genial.
houve uma pausa.
- Preciso desligar - Disse novamente, embora no quisesse.
- Boa noite - disse Sam, com uma voz to suave que quase
no consegui ouvi-lo.
Desliguei o telefone e suspirei: "Precisava contar a ela. Eu
tinha de contar".
Quando chegou a sexta-feira, eu estava agitada. O baile do
Dia dos Namorados seria na noite seguinte.
Na hora do almoo, decidi. Comentaria sobre o assunto num
tom indiferente, com a maior naturalidade:
- Por falar nisso, voc no vai acreditar, Iz, parece um milagre, mas vou danar com o Sam. Na verdade, no  nada muito
srio...
Naquele dia o pessoal do grmio estava vendendo cravos no
refeitrio aos futuros tipos romnticos. Um cravo branco significava amizade, o cor-de-rosa, amor, e o vermelho era paixo
arrasadora. As garotas mandavam para os garotos, e os garotos
para as garotas. Eram entregues nas classes o dia inteiro pelo pessoal do grmio.
- Odeio esse sentimentalismo piegas e estereotipado - Izzy
comentou na hora do almoo. Ela suspirou: - Como ningum
manda nada para mim?
- Talvez porque voc odeie todo esse sentimentalismo piegas e estereotipado.
Izzy sorriu. Ela usava um bon de beisebol. Achei que estava
mais plida do que o normal.
- Vou pegar mais suco. Voc quer? - perguntei.
Izzy balanou a cabea, negando.
- Sabe, o baile do Dia dos Namorados  amanh. Lembra-se
do dia em que falei que ia convidar o Sam? Por que no o fiz?
Levantei-me e peguei minha carteira. Fale, Alison.
- Acho que perdi a coragem - continuou. - Voc acha que
ele estava flertando comigo na festa? Ou era uma simples cOrts paixo?
No lhe disse que ele pegou minhas anotaes de francs
emprestadas ontem? comentamos sobre o cego que conduz o
outro. Ele tem faltado s aulas mais do que eu. Gostaria de saber
qual  o problema.
- J volto - disse eu, saindo.
Tudo parecia to claro. enquanto estava l de p, senti
mau cheiro de repolho cozido do refeitrio. Inicialmente,
eu podia ter tido boas intenes, mas agora elas simplesmente podiam
tornar as coisas muito piores.
Paguei pelo suco de uva-do-monte e, quando estava vindo
de volta pelo corredor, vi o Sam. Ele estava de p junto do
lugar dos cravos, curvado, escrevendo um bilhete em um dos cartesinhos que mandavam junto com as flores. Perto dele estava
o parceiro de Izzy em fsica, todo compenetrado.
"Para mim?", pensei por um segundo. E ento: "Pelo amor de Deus,
, no". No queria que ela descobrisse daquela maneira. Voltei para junto de Izzy. Ela estava examinando sua imagem
numa faca.
- Sou eu, ou estou vendo o espectro da Mortcia neste
rosto plido?
- Belisque suas bochechas - aconselhei.
- Veja - cutucou-me Izzy. - Sam eSteve na mesa dos cravos.
voc viu?
Olhei para trs E: encolhi os ombros, indiferente.
- chheguei a pensar que Sam podEria estar comprando
alguma coisa para mim, mas no acho que o fato de conjugar verbos
possa resultar num compromisso. Voc acha?
- Nunca se sabe. Voc no vai comer o bolo?
- No estou com fome. Steve est l tambm. Provavelmente
ele est comprando o meu tradicional cravo branco. Ns sempre damos
um para o outro todos os anos para no nos sentirmos excludos.
- talvez haja algo mais em relao ao Steve que
descobriremos.
- Steve?, de jeito nenhum. Somos apenas bons amigos.
Voc sabe disso.
- Tem certeza?
- Dumbo no  um nome carinhoso.  gozao.
Ns sempre brincamos de gostar dos meninos, mas nunca tinha sido
nada que merecesse maiores atenes.
Agora, com o Sam a estria seria outra. Olhe!, ele vem
vindo.
- Ele Quem? - perguntei, j sabendo.
- Sam, o prprio! - ela virou-se e acenou.
Sam sorriu quando se aproximou. Foi um sorriso
lindo,
genrico e coletivo que envolveu a ambas. ELle deu a Izzy um
caderno de capa cinzenta.
- Obrigada. Voc salvou minha pele.
- No diria a pele e sim... Oh, no importa - desconversou
abraou Izzy com uma risada. - No consigo fazer sucesso com esta
mistura de Madonna e Mae West. Una-se a ns - disse ela, puxando
uma cadeira.
- Tenho de ir - disse rapidamente, me levantando. No era
difcil imaginar qual seria o rumo dessa conversa.
- Tenho que limpar meu armrio.
- Eu tambm - disse Sam.
- O que  isso? Vai haver uma inspeo? - perguntou Izzy.
- No, quis dizer que preciso ir - afirmou Sam. - Isto , ir
embora do campus.
- Cabulando aulas de novo? - repreendeu Izzy.
- Tenho uma reputao a zelar. J tive um bate-boca com o
Lutz por causa das minhas ausncias injustificadas.
- Bem - falei. - Estou indo.
- Vou sair com voc - ofereceu-se Sam.
- Espere um minuto, vou tambm - disse Izzy.
- No - respondi depressa. - Quando eu disse ir, sabe
qis dizer ir ao... - apontei para o banheiro no canto.
Izzy olhou para o Sam esperanosa.
amigo, - Voc poderia me fazer companhia enquanto
como o bolo - sugeriu ela.
- Est bem - disse Sam, olhando-me, confuso. - Por um
minuto. Depois tenho de ir andando.
Bati em retirada para o banheiro. fiquei
l dentro bastante
tempo, o suficiente para me convencer a fazer o que eu j deveria
ter feito. explicaria tudo a Izzy: que eu quisera proteg-la e que as
coisas no saram exatamente como eu planejara.
Juntei os livros e estava para sair quando a porta se abriu
abrupitamente, quase esmagando duas estudantes do segundo
ano que partilhavam avidamentE um cigarro Malboro. Ela
ergueu triunfante um ramalhete enorme de cravos vermelhos.
- Leia o carto - gritou. - Leia-o com ateno e devagar,
para que eu possa sentir toda sua delicada poesia.
Ela passou-me um cartozinho com um corao e uma
flecha xerocopiados na capa, cortesia do departamento de artes.
- Com amor, Sam.
Ergui os olhos para seu rosto transbordando de felicidade.
- Com amor, Sam - li.
- Diga novamente.
- Com amor - disse bem devagar - Sam.
Foi como ulma daquelas cenas que ficam na lembrana para
sempre: Izzy, no meio de uma nuvem de fumaa de Malboro,
com seu bon de beisebol, um pouco torto na cabea, ninando
um ramalhete, como um recm-nascido. Seu sorriso era de quem
esquecera de sua doena naquele momento de encantamento.
- Tem certeza que diz "com amor"? - perguntou.
- Sim "com amor" - confirmei.
- Foi to gentil! Elle saiu andando bem despreocupado e, de
repente, quando eu estava jogando minha comida na lata de lixo
reciclvel, o garoto da mesa de flores se aproxima e diz: "Voc no
estava naquela mesa h um minuto?"
" Eu digo que sim e ele diz: "so pra voc".
Quando comecei a fazer xixi na cala, li o carto e
ento olhei para todos os lados a sua procura, mas ele tinha ido
embora.  tmido demais para ficar por perto, no  um encanto?
Fechei os olhos e os abri novamente. Izzy ainda estava l,
segurando o ramalhete. O que estava acontecendo? Por que Sam
feZ iSSO?
-  um milagre - disse Izzy. - Seus olhos brilhavam
apaixonadamente. (gotinhas de suor cobriam seu lbio superior.
Abracei-a. O perfume doce-amargo das flores, esmagadas
entre ns, tomou conta do ar cheio de fumaa.
- com amor, Sam - repetiu, pasmada. E ento seu sorriso
se apagou, seus olhos reviraram e ela caiu no cho, escorregando
entre meus braos.

8. Uma velha cano dos Stones
Foi o caos: a enfermeira, gente se acotovelando, a ambulncia, justamente na hora em que as aulas terminaram e todos
estavam saindo. Corri at o saguo para telefonar para minha me
e ver se ela podia me levar ao hospital. O pessoal da ambulncia
dissera que eu no poderia ir com eles. Eu fora  escola de nibus
naquele dia para que o carburador do carro fosse consertado.
Estava tentando tirar uma moeda da mochila quando algum
tocou meu ombro.
- O que aconteceu? - perguntou Sam.
- Pensei que voc j tivesse ido embora - respondi, agitada demais para pensar sobre as flores que ele mandara para Iz.
- Estava saindo quando vi a ambulncia. Um cara no estacionamento me falou que era a Izzy.
- Ela desmaiou. droga, sempre tenho milhares de moedas
na minha carteira...
- Posso lev-la ao hospital.
- Bom, sim, seria bom.
Continuava a ver sua face plida, de um branco levemente
azulado, como a do leite desnatado.
- O bon dela - disse eu, tremendo. Vi aquela cicatriz horrorosa. Pedi que eles o colocassem em sua cabea antes de tir-la
de l.
Sam pegou no meu brao e descemos o corredor aos pulos.
Estvamos quase saindo quando ouvi algum me chamar. O
inspetor de alunos, pensei, mas era um calouro de barbicha, agitado, trazendo um cravo branco.
- Voc  a Dumbo? - perguntou.
- O qu? No,  minha amiga.
Ele jogou o cravo para mim.
- Pode lhe dar isto? Ns estamos completamente
atrapalhados com as entregas.
Dei uma olhada no carto. Era de Steve.
- Outro admirador secreto? - perguntou Sam, quando
iamos em direo a sua moto.
coloquei o capacete.
- O que voc quer dizer com "outro"
Sam parecia um pouco magoado.
- Oh... voc sabe. As flores.
Levei um segundo, mas, finalmente, deu o estalo: trocaram as flores.
- Droga! - disse. -  tudo de que a Izzy precisa.
Ento tive uma sensao de alvio horrorosa. Afinal d
contas, as flores eram para mim e eu estava feliz.
- Um simples obrigado serve - brincou Sam.
- Obrigada. Mas por que voc no colocou meu nome na
capa do carto?
- O que h de errado, Alison?
- No  culpa sua, Sam.  minha. Vamos ver a Izzy.
Enquanto nos dirigamos para o hospital, s pude pensar
no rosto radiante de felicidade que ela demonstrava quando segurava o ramalhete. Como eu poderia lhe contar a verdade agora?
Laureen e Miguel j estavam l quando chegamos.
- Ela est bem - disse Laureen. - O que aconteceu foi
excitao demais num curto espao de tempo e reao
aos medicamentos. Sabia que no deveria ter deixado que ela voltasse
para a escola.
- Ela insistiu - lembrou-lhe Miguel.
- Podemos v-la? - perguntei, sentindo o cheiro de
desinfetante e de doena.
- Eles vo transfer-la para um quarto no andar de cima
disse Miguel.
- Vocs podem ir v-la. Acho que o nmero do quarto
 402. Vamos falar com o mdico e subir em seguida, indicou Laureen.
Ela olhou para o cravo branco que eu ainda segurava e
depois para o Sam.
- Voc  o Sam, no ? Ns nos conhecemos na festa. Ele
balanou a cabea, confirmando.
- Ela disse alguma coisa sobre algumas flores que... Foi
muito gentil. Significou muito para ela. Obrigada.
- Na verdade - comeou Sam, mas cutuquei seu brao.
- Encontro vocs l em cima, est bem? - disse eu rapidamente.
Quando ficamos sozinhos, ele balanou a cabea, contrariado.
- Eles trocaram as flores, no ? Como voc estava l no
refeitrio, quando as comprei aquele cara garantiu: "Ei! No se
preocupe, vou entreg-las agora".
Mas Steve chegou e percebi que as coisas poderiam se complicar.
- Olhe! apenas faa de conta, est bem? Ela ficou to emocionada, Sam. Voc deveria ter visto seu rosto.
- Mas elas eram para voc.
- Eu sei - toquei seu ombro. - Estou contente.
Fomos em direo ao saguo - um ambiente alegre pintado
de amarelo e magenta.
- Vou telefonar para minha me e lhe contar o que aconteceu e que ficarei aqui algum tempo. Voc pode me emprestar uma
moeda?
Sam enfiou a mo no bolso da cala.
- Aqui est. Alison, no posso simplesmente deixar que Izzy
pense que estou interessado nela...
Fiz um sinal para que se calasse, disquei para a clnica e disse
a Janet, a recepcionista, o que acontecera. Sam estava encostado
na parede com os braos cruzados sobre o peito. Ele parecia estar
absorto e preocupado.
Quando desliguei, Steve e Gail entraram no saguo.
- Ela est l em cima - falei. Ela est bem, foi apenas uma
reao aos medicamentos.
- Graas a Deus - disse Gail.
- Quem lhe deu a flor? - perguntou Steve, quando ns
entrvamos no elevador.
- Flor? Oh! Voc - joguei o cravo para Steve. - Foi trocada.
- eles so to ruins quanto o servio do correio.
Ao chegarmos ao quarto andar, puxei o Sam de lado.
- Sei que no faz muito sentido, mas confie em mim, est
bhem? Se a Izzy falar nas flores, apenas continue disfarando
encolha os ombros e diga: "Oh! bobagem", ou coisa assim.
- No acho que seja uma boa idia, Alison. Ela ficar com uma
idia errada da situao.
- Sei disso. Mas esta no  a hora apropriada para lhe dizEr
a verdade. Voc no a viu deitada l no cho, Sam.
Sam olhou para o teto.
- Olhe, ela est careca, tem um corte quilomtrico na
cabea e, alm do mais, comeu aquele supremo de atum. D uma
colher de ch para a garota!
Ele riu relutante:
- Sou um mentiroso desprezvel.
- Sim, mas voc vai ficar de boca fechada e esta  a melhor
coisa a fazer.
- Voc  uma garota muito interessante, Alison - disse ele.
- Um tanto estranha, mas interessante.
Ele estendeu o brao e acariciou a minha bochecha. Queria
beij-lo, mas, em vez disso, afastei-me. Izzy estava sentada na
cama, com Steve e Gail, um de cada lado. Ela parecia plida, vestida com uma camisola de hospital, amarela, mas, por outro laddo,
intacta.
- Ora, veja! toda a gangue aqui! - alegrou-se.
Steve jogou o cravo para ela.
- Foi trocado - explicou ele.
Izzy leu o carto, riu e lhe deu um abrao. Ela sorriu para
Sam, tmida.
- E por falar em flores...
Sam olhou-me em busca de ajuda.
- Sim, bem...
- Voc tem de admitir que desmaiar foi uma reao um
tanto quanto exagerada, Iz - apressei-me a dizer.
- O que est acontecendo aqui? - perguntou Gail, que no
estava entendendo a conversa.
Laureen e Miguel entraram.
- Ok! Chega de sociabilizao - ralhou Laureen.
- chau - disse Izzy, relutante. - Da prxima vez, tentarei
escolher melhor a hora. Talvez desmaie durante a prova de ingls.
Quando saamos em fila, Izzy pegou na mo do Sam. Fingi
no perceber, deixando que se virasse sozinho.
Dei chau para os outros e fiquei esperando por Sam no
corredor.
- O que ela disse? - perguntei quando ele apareceu.
Ele me olhou preocupado.
- Ela disse que sente a mesma coisa por mim.
- O que voc disse?
- Tome cuidado!
- Boa resposta, muito boa.
Sam balanou a cabea.
- Vamos. Precisamos conversar.
Indiquei-lhe o caminho para a praia das tartarugas. O dia
ainda estava quente e agradvel. Sentamos na areia com a gua
brincando com nossos ps descalos. Sam estava muito quieto, o
que, de certa forma, foi bom, pois tive tempo de amadurecer uma
idia que estava remoendo na minha cabea.
- Muitas tartarugas marinhas pem ovos por aqui - disse
eu, finalmente. - Izzy e eu monitoramos um ninho ali em cima,
no final da ltima primavera. A me vem de milhares de milhas
de distncia para a praia onde nasceu. Ela pe ovos aqui e depois volta para o mar.
- No estou gostando dessa histria, Alison - disse Sam. - Gosto de voc e no quero ficar com ela.
- Escute um pouco - disse eu. - E se voc, quer dizer, s
por um tempo... Voc no tem de se casar com ela. se voc fingisse que estava interessado nela e, quem sabe, at sasse com ela
por algum tempo? No seria necessrio ser bom em artes dramticas. Afinal de contas, ela  divertida e brilhante. Voc sabia que
ela foi uma semifinalista da Westinghouse? E voc tem de admitir que ela  linda.
- Bem, ela no  voc.
Comecei a rir.
- Sim, ela  o lindo cisne e eu estou mais para patinho feio.
Sam jogou a areia fora e chegou perto de mim, to perto que
pude sentir sua respirao quente em minha face.
- Voc  linda, Alison, acredite. A Izzy tambm , do seu jeito.
Mas no me pea para mentir para ela. No posso. No  correto.
Vi um jovem casal caminhando abraado na areia escura
E molhada, mais abaixo.
- Voc j se apaixonou alguma vez, Sam?
Ele acariciou meus cabelos e um tremor eletrizante desceu
pelas minhas costas.
- Engraado voc me perguntar - segredou ele. - Por falar
nisso, eu acho que est acontecendo agora.
Suas palavras doces me envolveram e fiquei olhando para ele.
- Sabe, Izzy nunca se apaixonou. No sei por qu. Talvez
seja porque ela deixa os garotos intimidados.
Sam acariciava meu brao.
- No quero saber da Izzy. Quero saber da Alison.
- Engraado, mas voc deveria perguntar se... - disse eu,
suavemente.
Sam segurou meu rosto com ambas as mos.
- Espere, Sam. Espere. Tenho de lhe dizer uma coisa.  sobre Izzy.
Minha voz foi abaixando enquanto eu falava. No queria
dizer em voz alta com receio de que desse azar.
- Ela vai morrer, Sam. logo. Ela tem apenas dois meses de
vida. E ela no... Seus pais no vo contar a ela.
Sam afastou-se e olhou fixo em direo  gua.
- Sinto muito, Alison - sussurrou ele. - Sinto muito,
mesmo.
- Tudo que lhe peo  que passe algum tempo com ela e a
conhea melhor. Ela  muito legal. E merece saber o que , realmente, gostar de algum. Ela saberia como  ter um namorado...
e sei que gosta de voc.
Eu estava chorando. Droga, pensei. No queria chorar
porque no sabia bem o motivo. Seria pela Izzy ou por mim?
- Izzy merece muito mais - disse Sam. - Ela merece mais
do que um dubl.
- Sim - respondi com a voz rouca. - Ela merece ir para a
faculdade, ganhar o Prmio Nobel, ter filhos, viajar pelo mundo e
envelhecer. Mas isso no vai acontecer, certo?
Sam respirou fundo.
- Por que voc est fazendo isso?
- Porque... porque ela  minha melhor amiga, eu a adoro e
est morrendo.
- Ento voc deseja desistir de tudo o que est acontecendo
entre ns?
- No quero desistir. Apenas quero compartilh-lo por um
tempo.
Sam encarou-me. Seu olhar era frio e impenetrvel.
- As coisas no so bem assim, Alison.
Antes que eu pudesse responder, Sam j estava caminhando
pela praia. A areia fofa cobria suas pegadas logo depois de cada
passo. Era como se ele nunca tivesse estado ali.
Quando Sam me deixou em casa, entrei devagar pela porta
da frente e parei no corredor. Na verdade, se eu pudesse evitar,
no iria falar com ningum. O ar estava com um cheiro forte de
alho do molho de tomate que meu pai costumava preparar. Ele
cantava na cozinha (mal), acompanhando seu CD preferido, Gratefil Dead. Como o som estava alto, eles no ouviram o
barulho da moto de Sam.
Sara estava em seu quarto, jogando a bola de basquete na
parede - um hbito que minha me j desistira de mudar havia
muito tempo.
Na sala, minha me estava sentada nos calcanhares, limpando um troo meio mastigado que lembrava vagamente o chinelo
dela. Algumas mechas de cabelo se soltaram de sua trana loura e
caam em cachos sobre o rosto.
- Limpo vmito de cachorro o dia todo, Jim - dizia ela -,
sou veterinria. Eu vivo e respiro vmito de cachorro. O que eu
quero dizer  que temos muitos animais em casa.
- Apenas um cachorro, um gato e um cavalo - gritou meu
pai, da cozinha. Ele entrou na sala danando (mal) com uma
colher de pau na mo.
- Uau! Voc  um pedao de mulher - disse ele a minha me.
Ela ergueu um pedao de papel-toalha.
- Estou limpando o vmito de cachorro do seu carpete
de quinze anos atrs, manchado de xixi de gato, que tivemos
que esconder com a cesta de costura de sua me e voc ainda  capaz
de pensar em safadezas?
Meu pai abaixou-se para beij-la e deu o molho de tomate
para ela experimentar.
- Mais alho - disse ela.
- No d!
- D!
Eles me faziam lembrar de um antigo e insistente comercial
a que eu tinha assistido milhares de vezes - a minha ilha da fantazia.
Todos os dias eu sintonizava e eles ainda estavam l: meu
pai, minha me e Sara fazendo as mesmas coisas tolas, em norma
cansatvas. Pelo menos,  sso que sempre pensei. Mas sempre
pensara tambm que a Izzy estaria l, para sempre.
- Ol, pessoal! - disse, dando as caras.
- Alison, querida, como est a Izzy? - perguntou minha
me. Ela colocou de lado seu material de limpeza e sentou comigo no sof.
- Ela est bem. Foi mais uma reao aos remdios.
- Liguei para a Laureen no hospital. Ela comentou que
Izzy talvez saia amanh.
- Ns mandamos alguns bales - acrescentou meu pai.
 uma bobagem, mas achamos que seria mais apropriado do
que flores.
- Obrigada, papai.
- O molho j est fervendo - disse ele. - Jantar em cinco minutos. - Ele tocou nos meus cabelos.
- tudo bem, fofinha?
- Est tudo bem.
Minha me me abraou e ficamos sentadas lado a lado.
Encostei minha cabea em seu ombro e tentei lembrar de como
me sentia quando acreditava que ela podia resolver tudo.
meu Bogey, nosso velho co mestio de labrador, entrou saracoteando e cheirou indiferente o local de seu crime. Ele pulou em
cima do sof e deitou-se em nosso colo.
- Ns temos animais demais - disse minha me.
Ela fungou e percebi que estava chorando.
- Droga! No sabia o que dizer a Laureen. O que voc diz
aos pais de uma pessoa que est vendo sua filha morrer? - perguntou. Ela
pegou um pedao de papel-toalha e enxugou os olhos.
- Como voc est reagindo a isso, meu amor?
- No parece verdade - disse eu -, Izzy est l na escola
comigo e nada mudou, exceto o fato de estar sem cabelo. assim
que deve ser. Quer dizer, no quero que a tratem de maneira diferente. Quero que tudo seja como era antes, porque acho que ela
quer assim. - Cocei a orelha do bogey.
Minha me falou:
- e aquele garoto? O Sam,
da Harley.
- Voc sabe?
- Paguei o dobro a Sara e ela falou.
- Por que no me perguntou nada sobre ele? Achava que
... voc fosse fazer um estardalhao por causa da Harley. Esta  a
questo, mame.
- Seu pai fez. Mas dei-lhe dez dlares - disse ela, alisando
- meus cabelos. - Sabia que mais cedo ou mais tarde voc ia me
contar. Alm disso, uma vez tive um namorado misterioso e
moreno que tinha uma moto.
- Verdade?
- Sim, mas seu pai a trocou por um fusca.
- Sorri pela primeira vez como havia dcadas no o fazia.
- O fato  que eu quero que Sam namore Izzy.
- Ih! O negcio est se complicando. O que Sam acha disso?
- Ele deve me achar louca. tambm acho que talvez ele
pense que me ama.
- E  recproco?
Hesitei.
- Isso no importa. Ela tambm gosta do Sam. Acho que ela
vai gostar muito dele. pensei que talvez eles pudessem namorar
por um tempo...
- Alison, no  to simples assm. Talvez - disse minha
me gentilmente - voc precise pensar por que est fazendo isso.
- Pela Izzy. Que est morrendo. Esta parte  simples.
- Sabe, no  porque ela est doente que voc tem de colocar sua vda de lado. No  porque aconteceu uma coisa ruim para
a Izzy que no possam acontecer coisas boas para voc. Acha que
ela iria querer isso?
- Isso no tem a ver com sentimento de culpa.
- Talvez no seja propriamente culpa - suspirou. amor  assustador, s vezes.
Meu pai apareceu novamente, ainda brandindo uma colher.
Suas bochechas estavam com umas listras de molho de tomate
como uma pintura de guerra.
- Veja o meu caso - sussurrou minha me. -  o tipo
de amor assustador.
- Quem est apaixonado? - perguntou meu pai.
- Ningum - disse eu, deslizando debaixo de Bogey para
sair.
- Nem eu, nem Izzy, nem ningum est apaixonado.
- Quer experimentar meu molho? - perguntou meu pai
 uma receita nova e incrementada.
- Eu no acho, papai.
Ele me pareceu um pouco desapontado.
- Alison - disse minha me -, d apoio a Izzy e
apoiaremos voc, est bem?
- Obrigada, mame. Vou tomar banho.
Parei no corredor.
- Papai? - chamei.
- Sim, gatinha?
- Pode acreditar - disse, com um sorriso cansado.
Precisa de mais alho. Sempre precisa de mais alho.

9. Feliz por algum tempo
Como o carburador da perua j havia sido consertado, fui encarregada
de levar Sara ao treino de basquetebol na escola, no
sbado de manh. Quando ela sentou no banco da frente com o
bon de beisebol, pensei na Izzy. Se a Izzy podia ficar doente,
qualquer um de ns podia, at mesmo Sara. parecia que eu s conseguia ver o mundo atravs das lentes escuras da doena da Izzy.
Se estava sendo difcil para todos ns, fiquei imaginando como
seria para ela ter de suportar tudo isso.
No caminho paramos no McDonalds.
- Voc acha que a mame e o papai vo morrer um dia? perguntou Sara, entre um gole e outro de milk-sluke de chocolate.
- Estatisticamente,  muito provvel - disse eu, despreocupada.
Ela examinou seu canudinho, franzindo a testa.
- S daqui a muito tempo, Sara. Estamos falando de meio
sculo; relaxe, est bem?
- Nem sempre funciona assim - disse ela.
- No. Mas geralmente sim.
percebi que ela estava explorando e brincando com a
questo como se fosse uma ferida dolorosa. Ela parecia to confiante e inocente. Ser que eu pensara sobre essas coisas na sua
idade?
-  difcil, no ? - disse eu. - Izzy e tudo o mais.
Ela concordou, mordendo uma batata frita.
- Em que voc est pensando? - perguntei.
- Quantos anos eu teria em meio sculo. Sessenta. Vou estar
bem velha.
- Uma anci. petrificada, praticamente - disse eu, sorrindo.
- est bem, ento - animou-se. Deu-me uma batata frita e
por alguma razo me senti melhor tambm.
tnhamos acabado de passar pela placa que indicava a localizao do -ungle ardens - uma daquelas miniatraes com
jacars acinzentados e nmeros com pssaros cansados - quando Sara apontou para uma figura a cavalo mais adiante, andando
vagarosamente pelo acostamento da estrada movimentada.
- Deve ser um nmero do show - disse ela.
- Ele no deveria estar aqui fora neste trnsito - contestei.
- Ele tem um papagaio na cabea. Que outra coisa poderia ser?
Diminu a velocidade. Os outros carros Em nossa frente tambm, e ficamos olhando a pequena figura montada no cavalo
magro e velho que atravessava serpenteando o estacionamento do
cLube.
- E ele vem trazendo uns cachorros - continuou Sara.
Um carro de polcia em nossa frente entrou no estacionamento.
- Voc acha que eles vo prend-lo? - perguntou Sara. Quer dizer, no parece ser crime ter uma aparncia esquisita neste
pas, no ? pobre velho, ele parece perdido.
- ele est perdido. Entrei no estacionamento ao lado do
Jiffy.
- por que estamos parando? Vou me atrasar.
- O homem a cavalo. Ele  uma espcie de amigo meu.
estacionei o carro. Os policiais j estavam se aproximando
de Morgan, acenando seus braos. ele acenou de volta.
- Voc conhece aquele cara? - perguntou Sara.
- Sim. - Suspirei e tirei a chave do contato. - Uma vez,
ns fomos a Vegas.
levei tempo, bastante tempo, mas consegui resolver tudo,
telefonei para Sam em seu trabalho e ele veio no mesmo instante.
Os policiais foram muito gentis. Afinal de contas, o estado estava
cheio de velhinhos que no sabiam para onde estavam indo.
prontifiquei-mE a levar Clementine - a gua de Morgan de volta para casa, e os policiais levaram Morgan. Sara podia
escolher: viatura policial ou moto. No teve dvidas. Subiu na
moto e abraou Sam com cuidado, como se estivesse segurando
um vaso emprestado, muito frgil e caro. Ento, sorriu para mim,
vitoriosa, e, juntos, foram embora fazendo barulho.
Quando cheguei ao trailer, encontrei Morgan e Sara sentados
nos degraus da frente conversando animados. Sam estava sentado
no Cadillac, com o teto abaixado, tomando uma Coca-cola de
canudinho, com o olhar perdido.
- Alison salva novamente! - disse ele, enquanto nos aproximvamos.
- Bem, a rigor eu deveria estar montada num cavalo branco. Desci do cavalo e afaguei seu focinho. - Diga-me, quantos
anos tem essa garota?
- Muitos. Morgan tinha um rancho no Novo Mxico. Isso
foi depois de fazer umas economias, trabalhando como madeireiro
no Oregon. E da poca em que foi segurana em Vegas.
Lancei um olhar ao velho. Tive certeza de que se uma brisa
mais forte soprasse ele se dissolveria no meio dela como um tufo
de dente-de-leo.
- Morgan trabalhou como segurana? - perguntei.
- Num cassno.
- Al! Veja isto - gritou Sara. O papagaio estava em seu
ombro. Ela assobiou e a matilha a rodeou. Ela bateu palmas, girou
a mo e todos os quatro deram uma cambalhota para trs simultaneamente.
pisquei os olhos, incrdula.
- Oh, sim - disse Sam. - Esqueci de falar da parte em que
ele treinava animais para o circo Ringling Brothers.
- Voc est brincando!
Sam sorriu lentamente.
- De jeito nenhum. Morgan teve uma vida e tanto.
- Foi assim que acabou chegando a Sarasota? por muitos
anos, a cidade sediou os circos durante o inverno.
- Sm, ele tnha muitos amigos aqui. A maioria j morreu.
Ou foi embora.
- Os cachorrinhos montam nas costas dos grandes tambm
- gritou Sara. - E os poodles montam em Clementine.
- No agora - disse eu. - Ela teve um dia difcil. Precisa descansar, comer e beber gua.
- Vou fazer isso - disse Sara. - Est bem, Morgan? Morgan acenou que sim vagamente com a cabea. Ele parecia
extremamente cansado, mas feliz.
- No consigo acreditar que Morgan tenha cavalgado
aquela distncia - disse, baixinho. - Para falar a verdade, nem
mesmo acredito que ele tenha conseguido montar.
- Varia - disse Sam. - H dias em que ele est perfeitamente lcido, e outros em que no sabe nem o prprio nome.
Ento ele fica deitado na cama por uma semana, acumulando
energia, e apronta uma arte como essa.
Ele olhou para Morgan, e seus olhares se cruzaram rapidamente.
O queixo de Sam contraiu-se. Passei Clementine para Sam
E me aproximei de Morgan.
- Bem - disse eu. - Que aventura, hein? Voc deve estar
cansado.
- Estou. Um pouco.
- Que tal uma soneca?
- Pquer depois disso?
- Veremos. Vamos - estendi o brao e ele aceitou.
Dentro, o trailer estava escuro e arrumado. Havia uma cadeira
pequena, um sof, um fogo a gs velho e muito pequeno e um
aparelho de televiso com uma antena de alumnio. Levei-o at a
cama do canto. Ele deitou-se obediente, mas com uma pontinha
de contrariedade, como um garotinho cansado cedendo ao sono.
Cobri-o com o velho acolchoado feito a mo que estava ao p
da cama.
- Morgan? - perguntei. - Aonde voc estava indo hoje?
Ele abriu a boca e fixou os olhos num ponto qualquer atrs
de mim.
- Acho que nem pensei nisso.
- No tem importncia. S perguntei por curiosidade.
Ele fechou os olhos e disse:
- Esta noite ns vamos a Vegas. Ou ento a Wisconsin.
- Qualquer um dos dois seria legal - concordei eu, mas
j estava dormindo. A luz do sol ofuscava, depois que sa do trailer escuro. Fui me encontrar com Sam. Insisti em que deveria sair com Izzy, para deix-la feliz; 
pelo menos em seus ltimos dias.
- No  bem assim - Sam virou-se. - Ei, voc quer
almoar ou comer alguma outra coisa? Estou Lhe devendo.
- No, obrigada. Estou mais a fim de ficar sentada aqui.
- Vou lev-la para pegar seu carro na hora que voc quiser.
- No estou com pressa. Sara est se divertindo pra valer
com o maior show da Terra, ali adiante. Ela deveria ter ido ao jogo
de basquetebol, mas acho que opasseio de moto com voc foi
muito melhor.
Fechei os olhos.
- Morgan me disse que vamos a Vegas esta noite. Ou a
Wisconsin. Ele morou nesses dois lugares?
- E em centenas de outros
- disse Sam. - Eu a v-lo todo vero, s vezes no periodo de aulas
tambm. No importava onde ele estivesse - acrescentou, balanando a cabea. - Uma vez eu passei quatro semanas com ele
num barco de pesca de camaro no golfo.
- Quantos anos voc tinha?
- Sete. Foi genial. Decidi que ia ser um pirata, mas descobri
que era alrgico a frutos do mar.
- No acredito que sua me tenha deixado voc ir.
- Ela no me deixou ir. Ela mandou-me para l.
Levantei meu banco no mesmo instante em que Sam reclinava o dele.
- Ela mandou voc? Sua me mandou-o embora para um
barco de pesca de camaro quando tinha sete anos?
Sam fechou os olhos.
- Ela me mandava para todo tipo de lugar - eu e os meus
dois irmos.
- Ela mandou voc para c tambm?
Sam fez que no com a cabea.
- No, isso eu fiz por minha conta. Ela acha que sou muito
louco, por ter vindo para c.
- No entendo.
Ele no respondeu. Apoiei-me nos cotovelos e fiquei observando-o. Suas bochechas e seus braos estavam queimados de sol.
Com os olhos fechados ele parecia mais jovem e indefeso.
Ele estendeu o brao para que eu pegasse em sua mo.
Hesitei por um momento e ento a segurei e ele comeou
a apert-la fortemente. Seus olhos ainda estavam fechados, o outro
brao estava sob a cabea e os ps sobre o painel do carro. Podia
dizer que ele estava tirando uma soneca vespertina se no fosse
o jeito com que apertava minha mo.
- Durante a minha infncia - disse Sam - as coisas no
foram l muito boas. Meu pai e minha me brigavam muito.
eram bons nisso. (Quando chegava o vero, minha me nos mandava para qualquer lugar onde meu av estivesse; minha av
morreu ainda jovem e o meu av era um tipo de pessoa aventureira
mas suponho que minha me achava que isso seria bom para descansarmos. A seu prprio modo, um tanto estranho, ela est
tentando nos fazer um bem.
Ele suspirou e continuou:
- Quando eu tinha uns nove anos, meu pai foi embora
pra sempre. Por muitos anos minha me jurava que ele ia voltar,
o que acabava sendo muito pattico. Sempre gostei de Morgan por isso. Perguntei-.
se meu pai ia voltar e ele respondeu que isso era to provvel
quanto um porco voar.
- Bem, sua me... provavelmente ela estava tentando proteger voc.
Sam abriu os olhos.
- s vezes  bem melhor aceitar a verdade e encar-la,
Alison. de qualquer forma minha me ficou perdida por algum
tempo - uma crise nervosa, voc diria. Decidiram nos internar
num orfanato, mas Morgan apareceu na hora em que estvamos
arrumando nossas malas, literalmente - disse ele, rindo tristemente. - O heri salvador. Ele cuidou de ns at minha me
melhorar. Depois disso, ficou por l por mais algum tempo e
acabou vindo para c.
Sara corria pelo campo ladeada pelos cachorros... Quando a
vimos, ambos comeamos a rir.
- Ento, por que veio para c? - perguntei. - Voc disse
que sua me no queria que viesse.
- Morgan tinha de levar Galgo a Detroit para uma
exposio no Natal passado. Um vizinho cuidou dos animais para
ele. O nico problema foi que ele acabou indo para Kalamazoo e
no para Detroit. Voc est vendo que ele estava bem longe de l.
Ento minha me comeou a pensar que talvez fosse melhor
intern-lo numa casa de repouso. Mas, quando falou disso com
Morgan, ele ficou furioso. Principalmente porque no suportava a
idia de deixar os animais, mas tambm porque sabia que isso significava, sabe como , o comeo do fim. Esse tipo de coisa mata
voc. Minha me no queria intern-lo. Ela estava sofrendo muito
com isso, mas parecia no haver alternativa at que...
- At que voc decidiu vir cuidar de Morgan sozinho - disse eu.
- Bem,  isso mesmo. Minha me est preocupada com o
fato de eu no conseguir lidar com ele, mas tenho de tentar.
Morgan sempre esteve presente quando precisei dele.
Sam soltou minha mo. Ele sentou-se e esfregou os olhos,
olhando com carinho em direo ao trailer.
- Sabe, s quero cuidar das coisas. No para sempre. eu sei
que esta situao no pode continuar para sempre, mas por um
pouco mais de tempo. Se pelo menos eu conseguir manter o
Morgan sob controle, sei que vai dar certo. Minha me est
mandando dinheirO e temos uma pequena poupana.
- Mas voc est faltando muito s aulas, Sam. O problema
com a polcia hoje e o fato de Morgan pegar o carro...
- Eu sei - disse ele, agarrando a direo. - Acredite-me, eu
sei - enfiou a mo no bolso da cala e tirou uma carta dobrada...
-  do vice-diretor. Mais uma ausncia injustificada e estou
fora.
Eles no podem fazer isso!
- Na verdade, eles tem sido muito legais.. Como sabe da
situao, ele e os professores tm-me dado algumas chances.
- Acho que... acho que o que voc fez, sua atitude de ter
vindo at aqui para cuidar de Morgan  muito louvvel.
- Sim, sou um cara legal - disse Sam. Ele olhou para mim
com os olhos midos. - Se pelo menos voc o tivesse conhecido
antes, Alison. Ele simplesmente adorava a vida. No tinha medo
de nada. Era muito independente. - Franziu a testa. - Aquelas
coisas so como gaiolas. A nica vez que vi Morgan chorar foi
quando minha me falou em intern-lo. - Encostou a cabea na
direo. - Meu Deus, voc deve estar achando que sou louco.
- No penso assim de jeito nenhum. Acho que  maravilhoso o que est tentando fazer.
Com a cabea ainda inclinada sobre a direo, Sam a virou
para o meu lado. Parecia to esperanoso que deu pena de ver.
- Tem esta vizinha - a Jane. Aquela que voc viu aqui no
outro dia. Seu marido tinha mal de Alzheimer, por isso ela sabe
como . Ela realmente gosta do Morgan. s vezes, ela vem aqui e
toma conta dele para mim. acho que, se eu puder programar os
horrios, tudo vai dar certo. No posso ficar com ele o tempo
todo, obviamente. Mas farei o melhor que puder. Apenas tenho
de faz-lo entender que as coisas s vo dar certo se ele se comportar muito bem.
- Poderia ajudar - ofereci. - Poderia vir at aqui, de vez
em quando, quando voc estiver trabalhando.
- No - disse ele, com firmeza -, no posso envolv-la
nisso tambm.
- Gosto do Morgan - falei. - Ele me disse que eu era um
mulhero.
- Isso foi seu papagaio, Embora seja verdade. Obrigado por
ter-se oferecido, de qualquer forma.
Sam levantou a cabea.
- Do que voc est rindo?
- Estava apenas pensando... Imaginara encontrar todo tipo
de coisa bizarra, depois de ouvir os boatos na escola. Mas esta
nunca me ocorreu.
- Voc acha que sou maluco.
- Na verdade, acho que voc  surpreendente. De um jeito
meio maluco.
Sam inclinou-se em minha direo. Pegou meu rosto com as
duas mos e ficou olhando como se estivesse me vendo pela
primeira vez. A grama farfalhava com a brisa. Depois de um
momento, ele soltou meu rosto e ns ficamos sentados l, em
silncio, observando tudo e nada ao mesmo tempo.
- Como estar a Izzy agora? - perguntei, para falar alguma coisa.
- O que voc quer dizer?
- Talvez haja um pouquinho de culpa em tudo isso.
- Que tipo de culpa?
Mudei de posio me sentindo desconfortvel.
- Parte dela atribuo ao fato de que me parece errado ter
alguma coisa boa acontecendo comigo agora enquanto algo de
ruim est acontecendo com uma pessoa de quem eu gosto.
- e a outra parte?
- No importa. Vai dar a impresso de que tenho doze anos
de idade.
Sam sorriu malicioso.
- Est bem, culpada pelo fato de... - hesitei. - pelo fato de
ter gostado de voc desde o dia que nos encontramos, mas, ento),
algumas horas depois disso, Izzy disse que gostava de voc e eu
no quis falar sobre o assunto porque ela acabara de descobrir que
estava doente - tomei flego.
- Voc gostou de mim?
- Sim, muito.
- oh! e agora voc est querendo jogar toda essa magia pro alto, pelo
bem da
humanidade.
- No, pelo bem de Izzy.
Abri a porta.
Sam tamborilou na direo. Pude perceber que estava se
preparando para tomar uma deciso.
- Alison - disse, finalmente -, tenho maus pressentimentos sobre isso. Acho que  um erro. No para voc ou para mim,
mas para Izzy. - Ele parou um pouco e acrescentou: - O que
quer que faamos temos de estar certos de no mago-la.
Subitamente compreendi o que ele estava dizendo. Senti
uma mistura explosiva e estranha de entusiasmo e derrota.
-  bvio que no podemos mago-la - disse, baixinho.
- Voc ainda est convencida de que isso  uma boa idia?
- Ela gosta de voc, Sam. Apenas saia com ela e divirta-se,
deixe que tenha um namorado por um tempo. m... - procurei
uma palavra delicada -  temporrio.
- Temporrio - sussurrou ele.
Ns nos olhamos em silncio, compreendendo o que isso
significava.
- assim - disse Sam, finalmente -, acho que significa que
no vamos mais danar.
- De qualquer forma, voc no sabe danar. Alm disso, se
fssemos, a notcia se espalharia e Izzy ficaria sabendo.
Sam saiu do carro. Aproximou-se de mim, pegou minha mo
e puxou-me para perto dele.
- Voc sabe que estou apaixonado por voc, no sabe?
Ento ele me beijou. Um beijo longo e insistente que fez
com que eu me esquecesse de tudo, de tudo neste mundo.
At mesmo de Izzy.
Sam afastou-se. ele olhou-me extremamente concentrado:
- Agora que j resolvemos, voc pode me dar o nmero da
Izzy.

10. Dezesseis anos e nenhum beijo
Na tera-feira Izzy voltou para a escola agindo como se nada
tivesse acontecido, ou como se tivesse desmaiado s para chamar
a ateno. Passamos a hora do almoo na biblioteca comendo
Doritos s escondidas, enquanto eu a ajudava a pr em dia suas
lies atrasadas.
- O que O mdiCO disse?
Izzy levantou os olhos do seu caderno.
- Voc sabe como so os mdicos. Na verdade, eles no
dizem nada. Eles apenas resmungam fazendo pose.
Ela arrumou sua echarpe - um modelo verde de seda que a
deixava com a aparncia das mulheres da antiga Hollywood.
- Minha me e ele conversaram muito - continuou Izzy.
- Acho que compreenderam que eu iria para a escola mesmo
contra a vontade deles, ento calaram a boca e concordaram.
- Quantas sesses de radioterapia?
- Sei la..
A porta de vidro da biblioteca se abriu e Izzy me cutucou,
mudando de assunto imediatamente.
- Sam! Oh, Deus! E eu estou usando minha echarpe al Joan Crawford.
Preferia estar com meu bon. Sam andava sem rumo, examinando as
estantes. Cheguei a cruzar os dedos embaixo da mesa.
Izzy tirou um blush de sua bolsa e desenroscou a tampa.
- Sabe que eu no fiquei sabendo de mais nada dele depois do hospital?
Aposto que ele ficou assustado.
- Ele no tem aparecido muito por aqui - observei, pegando outro
dorito.
- No, foi o lance do hospital. Embora eu estivesse usando aquela
camisola frente nica, sexy, com os coelhinhos.
- Ela fechou o blush com um suspiro.
- Eu deveria cham-lo para vir aqui. No, vai parecer que estou
desesperada. por outro lado, eu estou mesmo desesperada.
- Voc, voc no est.
- Sim, estou. Estou careca. A falta de cabelo  igual ao desespero.
Sam vinha andando por trz de Izzy e olhou-me nos olhos. Seu olhar
estava agitado como o de um animal acuado. Desviei os olhos. Eu no
queria, de forma alguma, estragar tudo, deixando Izzy perceber.
- Ele est olhando nesta direo - Disse eu.
Izzy quase deu uma gargalhada, mas conseguiu se recompor.
- Cada trao de seu rosto  to bonito quanto minha cabea, Al. - Ela me
garantiu. - Ele est vindo nesta direo?
- Sim. Ele parece um pouco sem graa.  bom sinal.
- Estar sem graa  bom? - Pode significar que ele esteja se preparando
para fazer um convite.
- Oh, Deus!, oh, Deus!, Por favor - Sussurrou Izzy, depois gemeu. - Veja.
Estou falando com um Deus em que nem mesmo acredito.
Dei-lhe um leve chute. Sam estava se aproximando.
- Acho que voc tem de responder a todas as perguntas do final do
captulo sete. - Disse eu em voz alta.
- Senhoras - disse Sam, puxando uma cadeira.
- Vocs esto de posse de um contrabando em forma de gulouseimas com
alto teor de gordura.
- Ei,  nosso primeiro crime - Argumentou Izzy.
- Pode comprar meu silncio com alguns doritos - Disse Sam.
Seus olhos passaram por mim numa frao de segundos.
- OU pode sair comigo amanh  noite.
As bochechas plidas de Izzy enrubesceram.
- Voc prope um acordo em termos muito duros. No v registrar esse
crime na minha ficha.
- Est bem, ento - Disse Sam, enxugando a mo na cala. - Por volta
das sete. Sei onde voc mora. Ns... Sei l. Faremos uma orgia com
salgadinhos. Voc sabe que eu tenho uma moto?
- Mal posso esperar para contar para minha me.
- No esquea do outro capacete - Disse eu, me arrependendo logo em
seguida.
- Como voc sabe que ele tem um capacete extra? - Perguntou Izzy. Nunca
vi Sam sorrir daquela maneira. Eu sabia o que aquela expresso queria
dizer: "no disse que no a dar certo?"
- Foi naquela vez no campo, onde ele quase se matou, no se lembra que
lhe falei sobre isto? Ele estava com um capacete extra, o que encontrei
dentro da vala.
Foi minha vez de sorrir para Sam, vitoriosa. Ele levantou-se
abruptamente.
- Vejo voc amanh  noite - Disse ele para Izzy.
- Mais cedo - Disse Izzy.
- Hein? Ah, sim, o francs.
Quando estava saindo, ele rossou meu ombro. No foi um contato muito
grande nem uma falta grave, mas, instintivamente, me afastei.
Perfeitamente serena, Izzy ficou observando enquanto ele se afastava,
mas nem bem ele sumiu de vista, ela levantou o punho e gritou:
- Viva! Decolamos. Ele no tem os olhos mais incrveis do tipo " Estou
esperando por voc"?
- Olhos magnficos.
- E aqueles lbios de Cristian Slater e nariz de Tom Cruise.
- Todas as partes do corpo muito bem distribudas.
Ela parecia to extasiada que tive uma forte sensao de poder, como
qualquer casamenteira bem sucedida, mas era mais que isso. Senta-me
muitssimo generosa. Quase nobre, como Sam havia dito.
- Meu Deus, estou me vangloriando, no estou?
- Izzy, ele  maravilhoso.  gentil, Enviou-lhe flores e vocs vo sair
juntos.. Por que voc no deveria estar contente?
- Sou uma excelente observadora de carter.
- Mas eu no sou.
- Claro que  - Disse eu.
- Lembra-se do ltimo cara por quem estive apaixonada? Jerry? Alto,
muito alto do tipo "perfeito para mim"? Lembra-se de quando almoamos
perto do mastro da bandeira e que ele disse que tinha alguma coisa para
dividir comigo?
- Lembro.
- Sabe o que era? Um chocolate que havia comprado numa lanchonete prxima, antes de nos encontrarmos.
Levantmo-nos e samos. Escrevi um bilhete a ele numa folha de caderno, Manifestando minha satisfao pelo convite ter sido to direto, oferecendo ajuda a Sam. As 
coisas estavam comeando to bem que
eu queria garantir que continuassem assim. Fiquei imaginando uma crise
de ltima hora com Morgan, interrompendo nosso plano, e Sam ligando para
Izzy com uma desculpa qualquer - E ela arrasada.
Quando nos encontramos na sala de aula, Dobrei o bilhete e passei pra trz.
Sam,
Izzy est to animada!!! Voc precisava ter visto. Sei que vocs vo se
divertir muito. Precisa de ajuda com o Morgan? Ficaria feliz em
fazer-lhe companhia.
Sinceramente.
Al
Alguns minutos mais tarde, o meu bilhete foi devolvido. Sam escrevera
ao p da pgina com um rabisco quase ilegvel:
A - Obrigado. No. Jane se prontificou a fazer companhia a ele. Tive
uma conversa com ele. E ele prometeu se comportar. Est tudo bem. Feliz
por Izzy estar feliz. Ainda amo voc.
Ainda amo voc
Li essas palavras milhares de vezes, mas no olhei para traz. Amassei o
bilhete e logo em seguida reconsiderei, dobrando-o com cuidado e
colocando-o dentro do meu caderno. Quando o sinal tocou e samos
arrastando os ps em direo  porta, Sam e eu acabamos ficando lado a
lado. Caminhvamos to tensos e constrangidos como um noivo e uma noiva
indo para o altar.
Quando chegamos  porta, nos separamos sem trocar uma palavra.
Naquela noite, Sam me telefonou
- Voc acha que ela sabe?
- No - Disse. - Tenho certeza que no e tem que continuar assim.
- Amo voc, Alison - Disse Sam.
- Esperei. Podia ouvir a brisa empurrando levemente as palmeiras do
lado de fora da minha janela, e tambm a respirao uniforme e contnua
de Sam.
- Amo voc tambm - Disse eu e ento desliguei o telefone.
Na sexta-feira  tarde, Gail e eu fomos at a casa de Izzy para
trocarmos idias sobre o encontro. A maior parte do tempo passvamos
vendo o que Izzy chamou de seu prprio desfile de modas: Um desfile sem
fim de acessrios para usar na cabea.
Ela no se conformava em mostrar a cabea. Uma parte dela
estava avermelhada phor causa da radioterapia, como se estivesse
queimada de sol. Os tcnicos marcaram o couro cabeludo com
tinta roxa para facilitar a localizao das aplicaes. Finalmente
decidimo -nos por uma echarpe preta - Fui contra a saia -
e por uma cala preta com um
colete que Rosa bordara para ela.
- temos de ir, Izzy - avisei-a poucos minutos antes do
horrio que Sam ia chegar. - temos de levar nossas vidas
sem graa e sem cor.
- Fiquem - ela implorou. - Fiquem atque ele chegue.
- No - disse eu.
- Vamos - insistiu Gail. - Precisamos viver normalmente.
- DepresSa, Gail! - puxei seu brao insistentemente.
Izzy acompanhhou-nos at a porta.
- Voc eSt linda- exclamei.
- Maravilhosa! - concordou Gail. - Nossa pequena
Isabella j est adulta!
- Vocs j sabem onde vo? - perguntei.
- No tenho idia - disse Izzy e sorriu. - Voc sabe o que
 legal nisso tudo? Sinto-me normal pela primeira vez depois de
muito tempo. Sabe, como se no estivesse doente. Pela primeira
vez, no estou pensando em radioterapia, mdicos ou no tamanho do tumor. - Bem - acrescentou fazendo uma careta -, pelo
menos no estava at o momento em que mencionei o fato de
no estar pensando sobre isso. O que importa  o seguinte: tudo
o que me interessa neste momento  Sam e eu.
Era tudo o que eu precisava ouvir para ter certeza de que
Sam e eu estvamos fazendo a coisa certa. Independentemente
do que pudesse acontecer, Izzy guardaria para sempre aquele
momento, quando, por um breve espao de tempo, havia sido
apenas uma garota nervosa se arrumando para o primeiro
encontro.
Naquela noite eu estava deitada na cama lendo, quando ela
telefonou.
- Como foi? - perguntei, to logo peguei o fone, j sabendo que era ela.
- Perfeito - sua voz estava embargada de emoo. - O
cara perfeito, o encontro perfeito, perfeito, perfeito, perfeito.
- No houve o nervosismo do primeiro encontro?
- No. Pode parecer estranho, mas ele  simplesmente gentil,
engraado e encantador. Nada daquilo que pensvamos: aquela
estria do cara misterioso e bandido.
- No houve aqueles longos momentos de silncio constrangedores ou coisa assim?
- No. Fomos comer pizza no araiulo e foi como se j nos
conhecssemos h muito tempo. Ele foi to natural, realmente
aberto em relao  minha doena, bem diferente da maioria das
outras peSSOaS. voc Sabe como eleS ficam constrangidos.
Eu enrolava o fio do telefone no dedo.
- Voc descobriu muita coisa sobre ele?
- No muito. Um pouco. Ele contou-me que
est morando com o av. Foi isso. Mas falou muito sobre voc.
- Sobre mim?
- Sim. No sabia que vocs dois se conheciam to bem!
- bem... - hesitei. - Ns estamos no mesmo grupo de estudos.
- Foi o que ele disse. De qualquer forma, ele acha voc
muito legal. - Ela fez uma pausa e riu baixinho. - Obviamente,
foi a mim que ele beijou.
Tentei no pensar no que isso significava, deixando que
aquela doce sensao, que tive quando seus lbios tocaram os
meus, tomasse conta do meu corpo.
- E ento?
- Perfeito. simplesmente.... to... perfeito. Preciso achar
outra palavra. Alguma coisa que expresse melhor do que perfeito.
- Estou feliz, Iz. RHealmente, muito feliz.
- Sabe o que  legal? Ainda posso morrer virgem, mas, pelo
menos, no farei dezesseis anos sem nunca ter sido beijada.
Morrer. Aquela palavra, assim to solta!
- Como voc pode sabher se aquela  a pessoa certa para
voc? - perguntou Izzy.
-  como nos filmes. A cmera focaliza e o volume da musica aumenta. Se vocs realmente foram feitos um para o outro, a
cmera se afasta discretamente.
Ela comeou a rir.
- Bem, tenho de r embora. Rosa acha que tenho
exagerado. Quando chego em casa, ela pe a mo na minha
testa e no mesmo instante me faz medir a temperatura. Alguns
minutos mais de atividade alm do normal e ela j comea a
me enfiar goela abaixo todo tipo de mistura cubana: suco de laranja,
rins de porco e coisas desse tipo.
- Estou to felz que tenha se divertdo, Iz. Voc
merece.
- Al, muito obrigada.
- De qu?
- Por ter dado uma mozinha.
- no... De que voc est falando?
- Sabe como , convidando-o para a festa, dando
moral. Se no fosse isso eu no teria tido coragem.
de embarcar nessa relao.
- Tudo em nome do dever - disse eu, delicadamente. Amigo  pra essas coisas.
Desliguei o telefone e fui at a cmoda. Comecei a chorar ao mesmo tempo em que tirava a camiseta cinzenta e macia que estava usando e colocava outra.
Enquanto as lgrimas rolavam, dobrei muito bem a camiseta e a coloquei no fundo da gaveta embaixo de uma pilha de roupas. escondida de tal modo que eu pudesse esquecer
que existia. E que pudesse esquecer a tristeza dentro de mim, que tornara quase insuportvel ouvir a voz alegre da minha melhor amiga.

11. No quero mais dividir Sam
Quatro semanas se passaram. Via menos Izzy, porque ela via mais o Sam.
Ela achava que estava apaixonada e eu lhe disse que ela merecia isso.
Podia-se notar que ela estava piorando. J tinha tido dois acessos, ambos em casa.
s vezes, quando estava andando, arrastava um pouco a perna direita. Outras vezes, ela se atrapalhava ligeiramente ao falar. Embora parea estranho e bizarro, acho
que nunca a vira mais feliz, apesar das dores de cabea, da perda de peso contnua e da fadiga terrvel. Ela estava sempre rindo, sempre tentando manter o bom humor,
como se cada momento fosse o mais importante.
Algumas vezes pensei ter percebido uma ponta de sofrimento naqueles momentos de euforia, como uma atriz que sai do papel momentaneamente. Mas censurava-me quando
pensava nessas coisas. Estava tentando achar alguma sombra em sua felicidade, um indcio de que nem tudo estava to bem no relacionamento que eu mesma incentivara.
No era isso que eu esperava. Esperava que estivesse abrindo mo do Sam, partilhando-o do jeito que prometera a mim mesma: de forma aberta, tudo por amor a Izzy,
sem questionamentos.
Depois de algum tempo me acostumei a ver Izzy e Sam sussurrando, de mos dadas, fazendo as coisas que os apaixonados fazem. Ele e eu nunca conversvamos, exceto
na presena de Izzy. Ele nem tomava conhecimento da minha presena nos corredores. Era como se, ao voltar suas atenes para Izzy, ele no conseguisse manter nenhum 
tipo de relao comigo, nem mesmo como amigo. Depois de seu primeiro encontro, ele me chamara de lado, no corredor, para explicar que
tinha de manter distncia de mim. Dissera que era difcil demais, complicado demais.
aquilo doeu. Tenho de admitir que doeu de um jeito Quenunca acontecera antes - uma dor surda e vazia que no ia embora. Mas isso no era nada, nada, comparado
 dor que eu sabia que Izzy estava suportando, em silncio. Isso era tudo que tinha de lembrar quando via seus longos dedos entrelaados com os dela, ou quando a
beijava com tanto carinho que eu me perguntava se ele realmente chegara a gostar de mim.
Diante dessas situaes, sentia um cime terrvel, que me consumia por dentro. Ento, eu lembrava de suas olheiras e seu bonezinho de beisebol torto na cabea e
me perguntava que tipo de pessoa horrvel havia dentro de mim, que era capaz de ter tais sentimentos.
Uma vez, logo depois que Sam e Izzy comearam a namorar, estvamos juntos em um grupo grande no refeitrio. Eu estava sentada ao lado de Izzy. Ela disse alguma
coisa engraada que nos fez rir, e de repente Sam inclinou-se para beij-la. Segurou seu rosto delicadamente e beijou-a longa e vagarosamente, enquanto todos ns
observvamos um pouco constrangidos e um pouco fascinados.
Enquanto ele a beijava, abriu os olhos e olhou direto para mim. No sabia o que estava vendo em seus olhos naquele momento - mgoa, raiva? -, mas tive certeza
de que no gostei da dor aguda de cime e arrependimento que senti ao v-los juntos. Parei de me sentir nobre. Naquele momento senti apenas raiva.
Levantei-me para sair antes que o beijo terminasse. Estava a meio caminho do outro lado do refeitrio quando Izzy me chamou. Esgueirei-me pela porta to rpido
quanto pude, fingindo no ouvir.
No final de uma tarde, estava fazendo um trabalho de ingls quando ouvi uma voz familiar. Eu olhei pela janela e vi Sam conversando com Sara na entrada de carros.
Minha me bateu na porta.
- Sam est a.
- J ouvi.
- Digo que voc est indo? - disse ela, espiando dentro do quarto.
Fiquei olhando para o meu caderno.
- Diga-lhe que no estou aqui, est bem?
Ela olhou-me desapontada, de um jeito que s as mes sabem fazer.
- No vou. no! - disse eu.
- O que foi? - perguntou ela, na maior inocncia.
- No me olhe desse jeito. com esse olhar de superioridade materna. Est dando certo. Izzy, est completamente apaixonada por ele, eu no tenho nada para
dizer-lhe,
fim de estria. Ela sentou-se na cama comigo.
- E se o Sam no estiver apaixonado pela Izzy? E se no estiver dando certo e  o que Sam est querendo lhe dizer? Seja l o que for que acontea, voc no quer
que Iz sofra agora, quer? Suspirei e disse:
- Est bem. Falarei com ele na garagem. Mas faa-me o favor de no convid-lo para o jantar, est bem?
- Nunca a submeteria a tal humilhao. Ns vamos comer carne ensopada requentada.
Olhei no espelho. Estava com a aparncia de... bem, de carne ensopada requentada. No que isso
importasse.
- O que ? - disse quando cheguei  varanda.
Sara estava sentada na moto de Sam fazendo sua melhor pose de Evel Knievel.
Sam enganchou seus polegares nos bolsos. - Gostaria de conversar com voc.
- Tenho de fazer aquele trabalho de ingls para amanh. Estou meio sobrecarregada.
- Alguns minutos, apenas. acabo de vir da casa da Izzy. - Ela est bem? - perguntei-lhe, assustada.
- Ela est bem. Muito cansada. Ela est tendo mais problemas com seu lado direito. Mas voc conhece Iz. Est fingindo que est tudo bem - disse ele, olhando para 
mim.. - De minha parte, no sou muito bom nisso.
- No acho que precisemos ter esta conversa - respondi. - Acho que no temos escolha.
Sem uma palavra, virei-me e abri a porta de tela para que ele entrasse em casa.
- Sam, mame. Mame, Sam.
- Ol... Voc  a doutora Chapman, no ? - disse Sam, estendendo a mo.
- Sim - disse minha me. - Sinto muito que o pai de Alison no esteja aqui para conhec-lo, Sam. Ele tambm tinha uma Harley.
Sam pareceu impressionado.
- No pense que ele seja corajoso. Ele trocou-a por um carro.
Acompanhei em direo  varanda.
- Vamos. Podemos conversar l nos fundos.
Dei uma olhada para minha me querendo dizer que queramos privacidade total.
Sentamos nas cadeiras de plstico da varanda dos fundos, frente a frente, separados por uma mesa de plstico branco.
- Alison - disse Sam, sem prembulos -, sinto falta de voc.
- Sinto falta de voc tambm, Sam - disse eu, tentando parecer indiferente.
- Inicialmente eu fiquei magoado e com muita raiva de voc por causa dessa histria com a Izzy. Mas depois de algum tempo a mgoa comeou a desaparecer e percebi
que simplesmente sentia falta de conversar com voc.
- Por que voc tem me evitado, ento? Sam esfregou a testa.
- Porque  demais para mim,  tudo confuso demais. Bati os dedos de leve na mesa.
- A Izzy est apaixonada por voc, sabe?
- Eu sei. Mas ainda no estou certo de que isto seja uma boa idia.
- Por que no?
- Porque eu... - Sam colocou a cabea para trs, fechou os olhos e continuou: - Porque tudo est muito complicado. Porque sinto sua falta.
- No vamos falar de ns agora.
- Acho que Izzy merece saber toda a verdade - disse Sam. - Seja l qual for.
- Por que voc tem de tornar as coisas mais difceis? Est dando certo. Est dando muito certo.
Ele inclinou-se para a frente me observando. - No sei como dizer isso, Alison.
- Seus sentimentos por mim no importam neste momento - interrompi, j preparando o terreno porque sabia aonde ele queria chegar. - Haver bastante tempo...
- Voc no entende. Eu, realmente, ainda gosto de voc - disse ele, dando um sorriso ambguo. - Gosto muito.
mas este no  o problema. O problema  que estou... eu
acho que estou comeando a gostar de Izzy tambm.
Ele me olhou como se estivesse pedindo perdo. Podia ver a dor em seu rosto.
Podia perceb-la em sua voz.
No reagi. No queria que ele soubesse que naquele momento eu queria retomar tudo. Ao ouvi-lo dizer aquelas palavras em voz alta, compreendi que eu no queria que
ele amasse Izzy. Pelo menos, no do mesmo jeito que me amava... o jeito que eu pensava que me amava. Queria que ele voltasse. Por mim mesma. De repente no queria
partilh-lo mais.
No acho que alguma vez tenha me odiado tanto como naquele momento.
Peguei em sua mo e apertei-a.
- Mas isso  bom, isso  timo - disse eu... tentando falar com uma voz tranqila. - Mas foi justamente isso que eu previ.  claro que voc est se apaixonando por
ela. Ela  bonita e brilhante e, por que no dizer,  minha melhor amiga.
Tenho bom gosto quando se trata de amigos. Isso  bom - acrescentei eu, rindo alegremente
- , isso  bom, Sam. Santo Deus, no lute contra isso.
- No  o que eu queria que acontecesse. Queria voc.
- Est tudo bem, Sam. De verdade.
Sam deu um murro na mesa. Ela balanou para a frente e para trs no cho de cimento da varanda.
- No sou como voc - disse ele, levantando num pulo. Gosto das coisas claras e simples. Amo voc. Quero ficar com
Voc. Sei que estamos tentando fazer o melhor pela Izzy. sim , ela  uma
garota legal, e sei que seria natural que eu me sentisse atrado por ela, mas que droga,
Alison, deveria ser voc e eu. Mas voc conseguiu tornar tudo complicado e impossvel.
Fiquei observando, enquanto andava de um lado para outro. Simples sou eu, pensei.
Era ele que estava complicando as coisas.
- Sam - disse eu -, escute: Izzy no sabe que vai morrer. Pensa que voc a ama e que vocs vo ser felizes juntos. Contar-lhe a verdade agora seria intil e desonesto. 
Voc, honestamente, gosta de Izzy. timo. Ningum lhe disse que est curada e que vai viver para sempre. Ningum mentiu sobre isso.
Ento, o que h de errado em faz-la feliz por algum tempo?
-  errado se voc, no for feliz. No final ela vai perceber tudo, no final vai saber que voc est ressentida com ela, sem saber por que exatamente. Ou... ou, quando
eu a estiver beijando e pensando em voc ou coisa assim, ser como naqueles filmes
de terceira categoria em que voc deixa escapar o nome errado.
- Ou talvez voc a beije pensando nela apenas - disse eu, calmamente. - Talvez voc esteja com medo disso.
Foi minha vez de levantar.
- No vou ficar ressentida com Izzy, Sam, porque foi deciso minha. Alm disso, no h nenhum "no final". "No final" envolve tempo. E Izzy no tem nenhum.
- E o que acontecer quando ela... se ela...
- Vire essa boca pra l! Isso  mrbido e horrvel.
- E se eu me apaixonar por ela, Alison? - sussurrou Sam.
- Ento, talvez voc no esteja realmente apaixonado por mim.
Sam virou-se abruptamente e saiu andando, a passos largos pelo jardim lateral. Acompanhei-o at a entrada. Sara ainda estava sentada na moto.
- Como est Morgan? - perguntou ela.
- Ele est bem. Ele se divertiu muito com voc aquele dia. - talvez a gente possa ir l um outro dia.
- Quem sabe! - Sam colocou o capacete e Sara desceu da
moto. - Ele est bem mesno? - perguntei. Sam olhou-me friamente.
- Conversamos muito e ele prometeu se comportar. Est tudo sob controle.
- Izzy disse-me que ele andou saindo por a, de novo.
- Eu disse que est tudo bem. - Sam ligou a moto, e o ar vibrou com o barulho.
- Se voc precisar de ajuda..
- Penso que no.
Sam acenou para Sara e saiu fazendo um barulho ensurdecedor. Ela ficou observando-o com a cabea erguida e, quando ele desapareceu l embaixo na estrada, me olhou
de esguelha.
- No estou entendendo nada - disse ela.
- O qu?
- No entendo voc, ele e Izzy.
- Eu falei para voc, Sara. ele gosta de Izzy agora.
- Mas pensei que ele gostasse de voc. - Sua expresso era a de algum que sabia que estava sendo enganado, mas no conseguia entender como.
-  complicado, Sara.
Sentei na escada da porta da frente.
- A gente chega a determinada fase da vida e tudo se complica. s vezes penso que seria melhor ter ficado com sua idade para sempre.
- Mas no  muito legal.  uma idade muito chata. Dez  uma idade horrorosa.  como se voc fosse invisvel.
Ela pegou sua bola de basquetebol que estava escondida debaixo de um arbusto e comeou a driblar.
- Voc acha que talvez, algum dia, a gente possa ir ver Morgan e os animais de novo? - perguntou ela, num tom indiferente.
- Algum dia. quem sabe. Mas no imediatamente.
Sara driblou mais rpido, fazendo um crculo fechado na entrada da garagem.
- ei, o meu jogo vai ser logo. Um grande torneio - falou ela com uma voz neutra. - Voc pode ir? Vai ser no sbado
de manh.
- Claro.
- De verdade?
-  bvio, Sara.
- voc quer jogar bola?
- Acho que no. Tenho de terminar um trabalho. Sa em direo  porta.
- Al? - chamou Sara. Ela parou de driblar. - Sim?
- Por que no podemos ir visitar o Morgan? -  meio...
- No importa, eu sei - Sara encolheu os ombros. -  complicado.
- Parece que por aqui no tem Nenhum ninho ainda - falou Izzy numa sexta-feira  tarde, duas semanas depois, quando caminhvamos na praia das Tartarugas. Ela se 
deitou de costas na areia
branca e quente e se apoiou nos cotovelos.
- est muito cedo - disse eu. - Voc est cansada? - No, apenas com preguia.
Ela estava faltando s aulas com mais freqncia ultimamente, um dia aqui, outro acol. As sesses de radioterapia tinham sido suspensas, mas ela ainda estava exaurida,
principalmente depois de um dia inteiro na escola. Ela parecia to frgil!
Entendi por que Rosa passava o dia forando-a a comer seus mexidos de alto teor de gordura. Os ossos delicados de seu rosto apareciam cada vez mais e seus olhos
tinham uma expresso perdida como a de uma criana.
Sentei ao lado de Izzy e ficamos observando enquanto um castelo de areia muito bem-feito, obviamente um trabalho de muitas horas, se dissolvia como acar quando
as ondas o lambiam.
- Consegui, finalmente. Disse ao Sam que o amava - anunciou Izzy, muito feliz.
- Ento ele respondeu que receava estar
meio cado por mim. Achei to bom quanto o bsico pode ser.. Embora preferisse que fosse dito de uma forma mais
relahxada.
Olhei fixamente para a areia.
- Estou realmente feliz por voc, Iz - consegui falar, finalmente.
- Voc vai encontrar uma pessoa to legal quanto ele, sabe. - Eu sei.
- At meus pais o adoram - disse Izzy. - s vezes, acho que  bom demais para ser verdade. Voc acha que estou tendo alucinaes? Quero dizer, alguns daqueles remdios
que estou tomando so muito fortes.
- Se voc estiver tendo alucinaes aproveite e arrume um cara bonito para mim.
Izzy riu. Ficamos em silncio observando as ondas tranqilas. O mar estava calmo naquele dia e a praia tambm. Grossas nuvens escuras acumulavam-se no horizonte
e o ar estava parado e mido. Percebi que era a primeira vez que voltvamos quele lugar desde o dia em que Izzy me contara sobre sua doena.
- Quando eu morrer, quero minhas cinzas espalhadas por aqui - disse Izzy, de repente.
Fiquei gelada. No se eu morrer. Mas quando.
- No na gua. Todo mundo faz isso - continuou ela. Naquela grama onde encontramos o ninho.
Eu continuava olhando para o castelo de areia, agora uma massa disforme, lisa e marrom como uma escultura moderna.
- No sei se quero ser cremada - disse eu; apenas um comentrio espontneo no meio de uma conversa espontnea. No me agrada nem um pouco essa idia de ficar num
caixo embaixo da terra. Eu sou claustrofbica demais. Mas continuo achando que o fogo causaria dor.
 loucura,  claro.
Estava falando demais, mas no conseguia parar.
- At gosto da idia de funeral na gua - a canoa remando para o alto-mar ao som de uma linda cano de marinheiro ou coisa assim. Li uma vez que, nas Ilhas Salomo,
eles simplesmente colocam voc num recife para ser comida pelos tubares.
- Interessante - disse Izzy. - Lembra-te que s p e pro tubaro irs
tornar. E Tudo faz parte da grande transformao csmica. A cientista que h em mim gosta disso - disse ela, me observando enquanto virava de lado.
- O que voc acha que acontece quando morremos, Al?
- No sei - disse eu baixinho. - Preferia pensar que vamos para um lugar em que no houvesse espinhas e coisas assim. Mas no consigo encontrar
nenhuma religio
que esteja de acordo COm essa Idia.
- A de Rosa est. Ela vive mergulhada nas cerimnias religiosas em louvor aos cus. Ela chega a ir  igreja trs vezes por semana para rezar por mim, no lhe contei?
Chega a ser irritante. Agradeci a ela e lhe disse que preferiria que ela bordasse outro colete para mim.
Parece que a essa altura  mais razovel fazer isso.
Ela estava me dizendo que sabia. Ela soubera o tempo todo, mas ningum, incluindo Laureen, Miguel e provavelmente Sam mesmo podia admitir.
Todos ns ramos
covardes. Izzy deixou que fingssemos que tudo estava bem.
Somente agora, finalmente, ela estava se cansando da encenao.
Sentia uma agitao interior e estava a ponto de chorar. Era minha chance de ajud-la a superar tudo isso, mas no conseguia.
Eu no era a pessoa certa, disse a
mim mesma. Mas eu era sua
melhor amiga. Os melhores amigos so aqueles para quem dizemos todas as coisas que nunca diramos aos pais. Coisas como: eu sei
que estou morrendo e estou com
medo.
Mas nada que eu pudesse dizer a faria se sentir melhor: nenhuma mentirinha, nada. Eu era
boa em contar pequenas mentiras para agradar s pessoas. teria dito a
ela o que ela gostasse de ouvir, mas, desta vez, no sabia o que era.
- Lembra-se do dia em que viemos aqui? - disse eu, observando as ondas que vinham e voltavam. Por que voc no disse logo que estava doente, Iz?
- Que diferena faria a essa altura?
- Mas voc no foi honesta comigo.
- Voc est louca?
- Eu estava - disse. As ondas engoliram o ltimo castelo.
- Mas depois compreendi que voc fizera isso para me proteger. Izzy pigarreou.
- minha me est falando em irmos para iaroi e morarmos num apartamento l.
- Por qu?
Pela primeira vez pensei que ela pudesse fraquejar.
Ela estava tremendo e abraava os joelhos e sua boca se agitava por causa do esforo que fazia para no chorar. Ela lembrava uma daquelas estatuetas de porcelana
com pequenas rachaduras sob a pintura parecidas com as que minha av colecionava. Sabia que se ela comeasse a chorar se espatifaria em mil pedaos na areia e
eu no conseguiria junt-los novamente.
- Conte-me, Iz - disse eu, me acalmando. - Vai lhe fazer bem.
- Ela diz que acha que vou ter uma assistncia melhor l se alguma coisa acontecer. Mas no quero voltar para l, Al.  como uma sala de espera para a morte.
Ela comeou a soluar e seu choro era manso e infantil como se no tivesse mais energia.
Abracei-a. No sabia o que dizer. Havia apenas um grande vazio horrvel dentro de mim.
- Aonde quer que Voc v, estarei com voc - prometi.
- Voc no pode fazer isso - disse ela, soluando. - No pode ser assim. Voc tem de ir  escola e viver sua vida.
Ela fechou os olhos e percebi que estava tentando se recompor. - Quem sabe? - perguntou-se, baixinho. - Pode ser que eu morra dormindo na minha prpria cama. Seria
uma soluo.
Ela enxugou os olhos, afastou-se constrangida e se levantou com esforo.
- Mil desculpas! - disse ela. - Foi apenas um pequeno exerccio de autocomiserao. Os analgsicos me deixam chorosa.
- No se sinta arrependida. Por favor - disse
eu, levantando-me. Fiquei remexendo a minha mochila procurando minhas chaves para ganhar tempo.
Eu no estava conseguindo ajud-la. Estava fingindo, porque fingir era mais fcil.
Decidi encarar seus olhos assustados. Talvez fosse melhor ser honesta e me sair mal do que mentir e me sair bem.
- Voc sabe o que eu acho, Iz?
Ela fungou.
- Oque?
- Acho - disse eu, devagar, tentando encontrar as palavras
- que quando as pessoas morrem  de alguma forma... bem, como as tartarugas.
Tive receio de que ela risse de mim, mas no o fez.
- O que quero dizer  que temos a responsabilidade de preserv-las para que as outras geraes possam v-las.
Penso que  a mesma coisa com as pessoas.  nossa
funo preservar uma parte da pessoa de quem gostamos. Mesmo, sabe, depois que elas se vo.
Olhei para o lugar onde estava o castelo. Sobrara apenas a areia escura molhada, lisa e sem forma.
- No sei o que acontece quando morremos, Iz. Mas o que eu sei  que, se um dia eu perder voc, voc estar comigo. Para sempre.
Fiquei calada por um momento.
- Sinto muito. No sei o que dizer, ou talvez simplesmente no saiba como dizer - acrescentei sem jeito.
Izzy seguiu meu olhar enquanto eu observava a areia e a imensido das guas alm dela.
- Sim - disse ela, bem baixinho. - Sim, voc sabe.

12. Estou morrendo e estou commedo
Na manh seguinte a campainha do telefone tocou, interrompendo meus sonhos sombrios. Os pingos da chuva na janela soavam como o tamborilar de dedos impacientes.
Esperava que Sara atendesse o telefone: afinal de contas, era sbado. Ento, lembrei que meus pais a
haviam deixado no ginsio, onde ia haver treino para o torneio
de basquetebol, e seguido para a clnica, que ficava aberta at as duas
horas aos sbados. Peguei o fone.
- Sim? - disse eu, meio escondida embaixo da coberta.
- Alison,  o Sam.
Dei um pulo, acordando no mesmo instante.
- O que ? Izzy est bem?
- No, no, no  a Iz.  o Morgan - ovi um zumbido de uma broca eltrica. - Estou na oficina; veja, eu teria ligado para Izzy, mas ela estava muito abatida
ontem  noite...
- H algum problema com Morgan? Sam suspirou e disse:
- No, a no ser que voc considere que o fato de se estar preso seja um problema. Eles o encontraram andando a cavalo novamente. Jane me telefonou quando foi
at l para ver como Morgan estava, no encontrou nem ele nem o cavalo. Eu estava tentando conseguir autorizao para sair do trabalho quando os policiais me ligaram
para dizer que na delegacia estava um velho que dizia me conhecer. (ELe deu uma risadinha.) Um pobre policial teve de puxar aquele cavalo pela
rodovia gelada, debaixo
de chuva. Eles no acharam nem um pouco divertido.
- Vou pagar a fiana para tir-lo de l. No se preocupe.
- Posso ajudar em alguma coisa? - perguntei, hesitante.
- No, obrigado - respondeu Sam. - S liguei porque precisava falar com algum e me lembrei... Bem, no importa.
- O que voc vai fazer agora?
- Estou indo para o trailer.. Antes, porm, preciso passar na delegacia.
- Vou at l tambm. Talvez possa ajudar. Vou levar o carro; pode ser til.
- No precisa, Al. Acho que seria...
- Estou indo - interrompi, desligando o telefone.
Quando cheguei  delegacia, debaixo de uma chuva intensa, , Sam j estava l, conversando com os policiais. Depois de algum tempo e de tentarmos explicar tudo da 
melhor forma que pudemos, fomos com Morgan para o trailer, onde Jane nos esperava.
- O que aconteceu na delegacia?
- Morgan foi ao banheiro. Este foi o ponto crtico. - Nenhuma multa ou qualquer coisa assim?
- No. Acho que eles esto acostumados com isso. Ele disse franzindo a testa:
- Ele estava indo muito bem, no estava, Jane? Ficando dentro de casa, assistindo  televiso... Realmente, parecia que ele estava compreendendo tudo. - Sam encostou
na parede. - Tenho de me livrar daquela droga de cavalo! Este  o problema aqui.
- Sam - Jane acariciou seus cabelos molhados -, o problema no  o cavalo.
- Por falar nisso, onde est Clementine? - perguntou. - Eu a trouxe. Est tudo em ordem com ela.
- No   toa que voc est ensopada.
Ele andava de um lado para outro - uma tarefa no muito fcil naquele espao exguo.
- Ento o seu carro ainda est na delegacia? - perguntou Jane.
Fiz que sim com a cabea, enquanto tomava um gole de ch. A agitao de Sam contaminou de tal forma o trailer que parecia ser ele que o fazia vibrar e estremecer 
e no
o vento e a chuva.
- Posso lhe dar uma carona de moto at l - disse Sam.
- Espere at que a chuva diminua - disse Jane. - Voc no deveria dirigir aquela geringona com esse tempo,
Sam.
Encolhi os ombros.
- No tem importncia. J estou ensopada.
- Tenho que comprar algo para comer na volta - disse Sam para Jane. - O que quer que eu compre para voc?
Jane franziu a testa.
- Voc  um garoto teimoso. Se insiste em ir, ento traga um litro de leite. Quero semidesnatado, e no desnatado.
Ficarei aqui com o cavaleiro Solitrio
at voc voltar.
- Obrigado, Jane.
Sam deu um beijo rpido e tmido em seu rosto e ela sorriu feliz. Fomos em silncio, debaixo de chuva. Quando chegamos  delegacia eu estava tremendo de
frio.
- Voc tem um minuto - perguntei.
- Devo muito mais que isso a voc.
Fiz um sinal para que ele me acompanhasse at o carro. Entramos. Embora estivssemos ensopados, fiquei aliviada de sair da chuva.
liguei o carro e o aquecedor.
- Por que no nos disse nada sobre a escola? - perguntei. - Para Izzy, ou para mim?
Sam encolheu os ombros.
- Aconteceu anteontem. E, de qualquer forma, no queria ouvir sermes. J
ouvi o bastante.
- mesmo?
- Eles ligaram para minha me em Michigan e lhe contaram o que estava acontecendo. No que ela ainda no soubesse. Da, liga para mim e diz que, sem sombra de dvida,
 hora de eu desistir dessa idia, seria melhor para Morgan e para mim se o colocssemos numa casa de repouso, embora ela odeie a idia.
- O que voc disse?
- Eu falei: voc no desistiu do papai de um dia para outro, no  mesmo? Voc agentou firme. Ento respondeu que agentara tempo demais - disse ele, dando um soco
no painel. Desculpe. Estou de saco cheio com todas essas pessoas me dizendo o que  melhor para mim. a questo  o que  melhor para o Morgan.
- Voc est certo. Tenho certeza de que pode achar uma sada - disse automaticamente.
- Obrigado.
Ele estendeu o brao e tocou no meu ombro. -  bom ter algum do meu lado.
- O que Izzy diz?
- Ns no falamos muito sobre isso. Como ela tem estado muito cansada ultimamente, no quis aborrec-la com isso.
Um policial, o mais gordo, com quem eu falara na delegacia, estava atravessando o estacionamento em direo ao seu carro. Lembrei-me da minha manh com Morgan, do
seu olhar confuso, vazio e contente e de sua mo to frgil quanto um filhote de passarinho.
- Sam - disse eu, subitamente, antes que perdesse a coragem -, isso est errado. Eu estava enganada. Voc no vai conseguir resolver esse problema. Tem de encarar 
a realidade. Morgan precisa de mais cuidado do que voc pode oferecer. Voc
no percebe: Est se prejudicando
e vai acabar prejudicando-o tambm. Sua me est certa, Sam. Morgan precisa de algum por perto o tempo todo.
Ele olhou-me com tanta mgoa que me deu vontade de voltar atrs. Ele se afastou quando toquei em seu brao.
- Voc tentou mais do que qualquer outra pessoa teria tentado. Tem jeito para cuidar das pessoas, Sam, voc  o melhor.
mas as coisas mudam. Voc no pode evitar
que o Morgan envelhea. Voc faz o que  possvel, mas algumas coisas voc no pode mudar.
Ao mesmo tempo compreendi que, se colocasse Morgan numa casa de repouso, ele no teria motivo para ficar na
Flrida. Nenhum motivo exceto Izzy e talvez eu. Eu o
perderia para sempre. Ento, lembrei-me de que provavelmente j o tinha perdido.
- Desculpe - disse eu. - Estava apenas tentando ser honesta.
- Que diabo voc sabe sobre honestidade?
- No muito - admiti. A chuva ficou mais forte.
- Olhe. a Rosa trabalha numa casa de repouso; quem sabe eu possa falar com ela. Ou sua me poderia ligar para ela e combinar alguma coisa.
- Voc no sabe nada sobre lealdade, no , Alison? Quando se ama algum, voc no muda de idia no meio do caminho. Voc no decide assim: "Ei! Que tal namorar
a minha melhor amiga em vez de mim?" E: no se diz: "Olha, como voc est atrapalhando, vou tranc-lo num depsito para que fique  espera da morte".
Ele saltou do carro batendo a porta. No sabia se ele estava chorando ou se era apenas a chuva. Pensei em todas as mentiras que eu podia
lhe dizer para que se sentisse
melhor. Percebi o quanto di ver algum que voc ama to desesperado. Fui embora.
Minha me estava na cozinha quando cheguei em casa. Ainda estava com o seu avental branco de veterinria.
- J em casa? - perguntou ela. Joguei minha capa de chuva de lado.
- O que voc quer dizer com "j"? - perguntei trmula. Onde est o papai?
- ELle foi atender uma emergncia. No importa onde est o papai e sim onde est Sara?
Coloquei a mo na testa.
- Oh, legal, simplesmente genial. Oh, Deus, ela vai me matar.
- Voc esqueceu?
- Tambm tive uma emergncia. O av de Sam estava na delegacia -  uma longa histria. Peguei no seu pulso para ver as horas.
- Voc acha que  muito tarde?
- Deve estar terminando agora mesmo. Que droga! Como seu pai e eu no podamos ir, estvamos contando com voc, Alison. Era muito importante para ela.
- Vou tentar remediar a situao.
- Por favor, tente. Acho que ela est se sentindo um pouco negligenciada.
Quando estava para sair, minha me pegou no meu brao.
- Querida, tenho de lhe dizer uma coisa.
Seu olhar sombrio era s o que faltava naquele momento. Meu corao disparou.
- Oh Deus!  Izzy, no ? Ela assentiu.
- Como Laureen no conseguiu encontrar voc, ela ligou para mim no trabalho. Ela no quis deixar mensagem na secretria eletrnica.
Izzy teve outro acesso esta manh,
muito forte por sinal, por isso eles vo lev-la de volta para Miami para fazer exames.
- Quando?
- Imediatamente. Eles chamaram uma ambulncia para lev-la.
Ela pegou nos meus ombros, segurou firme e continuou: - Ela est bem.  apenas uma recada, no acredito... - Ela no quer ficar l. Ela me disse isso.
- Laureen gosta dos mdicos de l. Como conhecem o caso da Izzy, eles podem fazer o que  melhor para ela.
- Tenho de ir v-la agora.
- Podemos combinar alguma coisa para a prxima semana. Eu poderia mudar a data de alguns compromissos e faltar um dia de trabalho.
- No, mame, tenho de v-la imediatamente. Posso pegar a perua, no posso?
- Alison, no me ponha numa situao to difcil - disse ela, encostando no balco da cozinha. Seus olhos estavam midos. As vidraas vibraram com o barulho do trovo.
- O tempo est horrvel e voc sabe que aquele carro est dando problemas. No posso permitir que voc v, ento no me pea.
- Ando com ele por toda a cidade.
- Apenas para pequenas tarefas. Esta  uma longa viagem. Por que  to importante, Alison? Alguns dias no vo fazer diferena.
- Porque eu prometi. Porque faria diferena.
- Sinto muito mesmo, Alison. Mas a resposta  no. Mordi meu lbio inferior para parar de tremer.
- A Laureen ligou para o Sam? - perguntei finalmente. - Ela disse que tentou, mas ningum atendeu no trailer.
Procurei o telefone do Sam e disquei. Jane atendeu.
- O Sam j voltou? - perguntei.
- Ainda no - disse ela. - Voc quer deixar recado? - Sim. No. Ligo depois - disse, e desliguei.
- Vou trocar de roupa e pegar a Sara.
Minha me balanou a cabea aquiescendo. Ela chorava baixinho e compreendi que estava to confusa quanto eu. Cheguei perto dela e nos abraamos. Senti-me melhor,
mesmo sabendo que nem eu nem ela poderamos resolver nada.

13. O sonho virou pesadelo
Sara estava esperando de cara fechada, perto do ginsio, com a bola de basquetebol debaixo do brao. Trazia um trofu de prata em sua mo direita.
ELa bateu a porta com tanta fora que eu dei um pulo. - Ns ganhamos, no que voc se...
- Sara, voc precisa entender. Queria vir, mas tive um problema.
Ela olhava para o trofu.
- Olhe, no sou nenhuma idiota. Sei que acha que sou uma idiota, mas quem sabe eu possa at entender a situao.
- Foi com Morgan. Ele saiu com Clementine novamente, s que desta vez foi preso. Tive de tir-lo da cadeia sob fiana porque Sam no podia sair do trabalho.
Pela primeira vez ela olhou para mim. - Ele est bem?
- Bem, sim e no.
- Eles o trancaram e tudo o mais?
- No. nada to dramtico. Gostaria que voc estivesse comigo l, poderia ter-me ajudado. Tive de lev-lo ao banheiro, ao banheiro dos homens. Estive ocupada a manh
inteira.
Ela concedeu um pequeno sorriso e nada mais. - Posso ver seu trofu? - perguntei.
Ela passou-o para mim, de m vontade. Era de plstico e de cor prateada - figura grosseira de uma garota saltando com uma bola de basquetebol na ponta do dedo.
- ridculo, eu sei - disse Sara.
- Nunca ganhei um trofu - contestei.
Devolvi para ela. Percebi que usava um esmalte cor-de-rosa em seus toquinhos de unha.
- Quando voc comeou a usar esmalte? - perguntei. - No sei. Faz algum tempo.  de Kayla.
- Eu tenho estado um tanto preocupada ultimamente, no  mesmo?
Sara fez um pequeno aceno com a cabea. Seus olhos se encheram de lgrimas.
- Acho que tenho me preocupado muito com Izzy, com Sam e outras coisas mais.
- No  por isso - resmungou Sara. - Comeou antes disso. Comeou... sei l, h muito mais tempo. Quando
voc entrou no ginsio.
- Comeou o qu?
- No sei, Al. Voc simplesmente mudou. Sinto como se... - Ela engoliu em seco e continuou: -  como se eu no pudesse entender.
- Voc no tem de entender. Voc tem dez anos e deve agir como uma garota de dez. Quando est crescendo, voc tem de passar por todas essas fases, algumas delas
muito chatas. Mas no h como fugir.
- Por que no?
- Porque...  difcil explicar.  como se voc estivesse jogando banco imobilirio. Se pular um dos espaos, voc estar trapaceando.
- s vezes, sinto como se voc fosse de outro planeta - disse Sara.
- s vezes, eu tambm - disse, rindo.
- Sabe, no sou totalmente dbil mental. Pode me contar as coisas.
- Eu sei que posso - afirmei. - Desculpe se esqueci disso por um tempo.
Subitamente, pensei em Izzy distante, dentro de uma ambulncia indo debaixo de chuva para um lugar para o qual no
queria.
- Sara, Izzy piorou - disse eu, em voz baixa. - Ela est sendo levada para um hospital em Miami.
- Voc acha que ela vai...
- No sei.
Ela balanou a cabea, compreensiva.
- Esquea o problema do jogo - disse, depois de algum tempo. - Algumas vezes... sabe como ... as coisas se complicam. Estvamos a meio caminho de casa quando o
carro comeou
a trepidar como se estivesse com raiva. Ele tossiu, suspirou e, ento, parou.
Consegui sair para o acostamento antes que perdssemos a velocidade.
Olhei para Sara e sorri preocupada. - Claro, tinha de estar chovendo!
- H um posto de gasolina a uma milha - disse Sara. - Hoje no  meu dia!
- Tudo vai dar certo, al. Quer que eu v telefonar e voc espera aqui?
Liguei o pisca-pisca.
- No, ns vamos juntas.
A chuva estava mais fria agora e mais forte tambm. Ficamos totalmente molhadas pelos carros que passavam enquanto amos lado a lado andando com dificuldade. O trailer
do Sam no ficava longe. Poderamos ter ido l e usado o telefone, mas eu ainda no estava em condies de falar com ele.
pelo menos, no frente a frente. Quando
chegasse em casa e estivesse calma e seca, ligaria para ele e falaria sobre Izzy.
Sara viu a moto antes de mim. Ela passou a toda velocidade e em seguida fez uma curva em U, voltou e parou atrs de ns. Sam -  claro. Ele estava levando uma sacola
de plstico de
compras, com a boca amarrada para no entrar gua.
- acho que  minha vez de socorrer voc - disse ele, secamente. Ainda estava zangado. - Vamos, vou lev-las para o trailer. Voc pode ligar para seus pais ou tomar
qualquer outra providncia de l. Sara, voc primeiro. Volto j - disse, olhando-me com reserva.
Continuei andando e em poucos minutos ele voltou para me buscar. Subi na moto e abracei sua cintura. Fiquei perplexa quando comecei a chorar,
porque era a ltima
coisa que eu queria fazer.
- Izzy piorou - disse eu, com a bochecha encostada em sua jaqueta molhada e lisa. Levaram-na para Miami.
Sam concordou brevemente. Ns voltamos ao trailer em silncio. Com Morgan, Jane e Sara l dentro, sem falar de todos os animais, era impossvel se locomover. O ar 
estava mido e viciado.
Sam jogou a jaqueta num canto.
- Quando Izzy foi?
- Esta manh. LLaureen tentou falar com voc por telefone. eu pretendia avis-lo quando chegasse em casa.
Estava sentada entre os dois poodles na beirada da cama de Morgan. No conseguia olhar para Sam.
- Receio que ela v morrer - sussurrei. - Tenho de ir l para v-la.
Sam passou os dedos entre os cabelos molhados.
- Vou pegar a moto.
Olhei para ele, esperanosa.
- No posso lev-la. No  seguro. Essa droga de tempo... - Oh! Mas para voc ir est bom? - reclamou Jane. - No, senhor, voc no vai fazer nada disso.
Ele olhou para ela com afeio e sua raiva abrandou. - Quem nomeou voc minha me?
- Voc precisa de uma me enquanto estiver aqui - disse ela com voz rouca.
- Queria ir de perua - disse eu, enquanto olhava distrada Cha-Cha subir no ombro de Sara. - Mas minha me achou que no seria seguro. Suponho que ela tem suas razes.
- Me d cinco - disse Cha-Cha.
Morgan, que estava sentado no sof, comeou a embaralhar as cartas.
- Caque-carta 5? - sugeriu ele para Sara.
- Eu poderia ir de nibus - argumentei.
- por que essa pressa, garota? Ela est to mal assim? - perguntou Jane, delicadamente.
Disse que sim. Sentia um n na garganta apertado e minhas mos tremiam. No podia dizer a eles que eu sabia que Izzy ia morrer logo. No sabia o que me
dava tanta
certeza. Talvez alguma coisa remota em seu olhar, naquele dia na praia. Pude perceber, ento,
que ela estava nos deixando.
- Sabe,  possvel que eles nem deixem voc entrar - disse Jane. - Sabe como so os hospitais.
- Ela no quer ficar l, Sam - insisti.
- Eu sei - disse ele, cerrando e soltando os punhos. - Eu sei. - Tenho um s - gritou Morgan.
- Que mulhero! - disse Cha-Cha para Sara.
- Obrigada - agradeceu ela, educadamente, olhando para mim.
Morgan levantou-se e foi arrastando os ps at o banheiro, que era separado da sala principal por uma divisria sanfonada. - Se eu tivesse um carro - garantiu Jane
- , podem ter
certeza de que eu o emprestaria para vocs, meninos. Ela balanou a cabea com tristeza.
- Mas talvez seja melhor assim. Coisas como essas no so agradveis de ver. Talvez seja melhor vocs pensarem nela como ela era. - No - disse eu, soluando baixinho.
- Eu lhe prometi.
Ela no pode ficar l totalmente sozinha. Ela queria ficar aqui, ela queria morrer em sua prpria cama...
Sam pegou a jaqueta.
- Vou l fora. Preciso de ar. Jane suspirou suavemente.
- Acho que vou fazer ch para ns.  isso a.
Morgan voltou. Ele veio cambaleando em minha direo como um daqueles brinquedos em espiral bamboleante, parou e colocou minha mo na sua.
- O que ? - perguntei, e ento compreendi. Em minha mo estava um molho de chaves. - So do Cadillac? - sussurrei.
Ele assentiu. Olhei nos seus olhos. Ele parecia vagamente contente consigo mesmo.
- Voc est me emprestando o Cadillac?
- Aquele carro tem uns cem anos! - exclamou Jane. - Quero ir - pediu Sara.
Olhei para as chaves em dvida. Morgan saiu arrastando os ps, pegou seu suter e o bon de couro de motorista.
- Morgan - disse eu -, no seria para Vegas nem para Wisconsin.
- Entre, entre - ordenou Morgan, andando com dificuldade em direo  porta. - No temos o dia todo.
Sara puxou meu brao com fora. - POSSO ir?
- Sara, vai ficar tudo muito complicado... - interrompi ao ver seus olhos abaixados. Sabe de uma coisa? Acho que  uma boa idia. Voc pode me dar apoio moral.
- Sabe que a mame vai nos matar, no sabe? - disse ela, alegre.
- Vou ligar para ela e contar. Vamos torcer para que a secretria eletrnica esteja ligada.
- No, deixe-me ligar - decidiu Sara. - Para mim,  mais fcil convenc-la.
- Est bem, ento. Tente.
Quando Morgan fez um sinal para os cachorros, eles fizeram uma fila perfeita e ficaram esperando pacientes seja l pelo que fosse.
Cha-cha voou para seu ombro.
Sara discou nosso nmero e fez um sinal de positivo com o dedo.
- Secretria - falou ela, baixinho.
- Que mulhero! - disse Cha-Cha para Jane. - Quieto, seu bicho malcriado! - ralhou Jane.
- Al, mame. Que chato! Esperava que voc estivesse em casa. Sara. AI, eu, o av de Sam, quatro cachorros e um papagaio vamos visitar a Izzy. Conseguimos um
carro. Acho que  meio velho. Vamos voltar... (Ela olhou para mim.
e eu ergui as mos em dvida.
- Num instante - sugeriu Jane.
- Num instante - repetiu Sara.
- Ah, ganhamos o torneio. ns arrasamos com eles. Chau
Ela desligou e perguntou:
- Me sa bem?
- Excelente - respondi.
- O que est acontecendo? - indagou Cha-Cha. Jane colocou os braos nos ombros de Morgan e disse:
- Querido, por que voc no fica aqui comigo para me fazer companhia? Voc no vai querer fazer uma viagem longa de carro.
Pode ser cansativa.
- Vai fazer quarenta e cinco - calculava Morg an, olhando fixo em seus olhos.
- Eu sei, querido. Venha, venha. Tire seu suter. Deixe que os garotos
vo sozinhos e faam o que tm de fazer.
Morgan deixou que ela o conduzisse at a cadeira. abaixeime e beijei seu rosto.
- Obrigada, Morgan - sussurrei. - E a voc tambm, Jane. Abri a porta. A chuva tinha diminudo. O cu parecia ameaador e opressivo. Sam estava perto de sua moto.
Sara passou correndo por mim e foi danando na chuva em direo ao Cadillac. Estava to excitada com a aventura que esqueceu qual seria nosso destino. Era assim
mesmo, pensei. Ela era apenas uma criana e fiquei feliz em lev-la comigo.
Virei-me e olhei para Morgan. Ele estava me observando com um olhar despreocupado e resignado.
- Ele vai fazer quarenta e cinco - insistia.
- No vamos a Vegas, Morgan - disse eu, delicadamente. Ele arrumou seu bon e falou:
- A ltima viagem.
Olhei para Jane. Ela estava balanando a cabea. ,
- Oh! Pro inferno! Vamos Morgan - disse eu, pegando em sua mo leve como uma pluma. - Vamos pegar a estrada e ver aonde ela vai dar.
Ele levantou e, por um momento, pensei ter visto algo mais em seus olhos. O sol surgindo atrs das nuvens. Mas talvez fosse apenas o que eu desejava ver.
- De l, para Vegas - disse ele. - Voc j jogou vspora? Caminhamos em direo ao carro. Os animais seguiram atrs.
abri a porta traseira e Morgan, os cachorros
e Cha-Cha entraram. Sara juntou-se a eles entrando pelo outro lado.
Sam correu at ns quando eu me sentava no banco da frente.
- Que diabos voc est fazendo?
Abaixei o vidro e disse, tentando localizar a ignio:
- Vamos visitar Izzy. Depois, quem sabe? Talvez Vegas
- Voc no pode dirigir essa geringona. um dinossauro - avisou ele, correndo em direo  porta onde estava Morgan, e abrindo-a. - Onde voc conseguiu aquelas
chaves? escondi-as em meu armrio. O que est acontecendo, Morgan? Voc tem enganado a mim, o seu prprio neto?
Morgan sorriu, puro e franco como um recm-nascido.
A chuva aumentou novamente, com fora renovada. Consegui achar o pedal da embreagem.
-  como qualquer outro carro, no ? Sam voltou para o lado onde eu estava. - Por que est fazendo isso?
- Preciso. A gente faz o que tem de fazer. Sam olhou-me fixo.
- Voc  uma garota muito interessante, Alison - disse ele, srio. Liguei o carro. Sam abriu a porta e olhou para mim, para Sara, para Morgan e para os animais.
- Sabe de uma coisa? - manifestou-se.
- Eu dirijo. - Por que voc?  uma atitude machista.
- Porque conseguiremos chegar l mais rpido. No  o que vocs querem?
Pensei um pouco e em seguida deslizei para o outro lado do banco largo. Sam entrou. Seu rosto estava molhado. Ele pegou na direo. No banco de trs os cachorros
ofegavam ritmadamente. A chuva estalava sobre o teto de lona.
- Pegue a estrada - instruiu Morgan. - Num minuto disse Sam, se voltando para mim. A raiva tinha se abrandado. O que voc vai dizer a Izzy? - perguntou ele, com
a voz to comida que eu quase no consegui ouvi-lo.
- No sei. Talvez lhe diga a verdade. Sam deu uma olhada em Morgan.
- A verdade como voc me mostrou hoje?
- No  isso que voc quer que eu faa em relao a Izzy?
- Sim. No sei. Talvez, mas no neste momento em que est to doente - considerou ele, com os olhos fechados.
- Foi o que eu pensei tambm. Outro dia, na praia, quando Izzy falava sobre a morte, comecei a pensar que, talvez, eu
estivesse sendo egosta em no ser totalmente honesta com ela. Eu estava me protegendo e no a ela.
- pode ser que a verdade sobre como tudo comeou no tenha importncia agora - opinou Sam. Pode ser que o que importe agora  que eu gosto dela e voc tambm.
- Talvez. Simplesmente no sei mais.
Sam deu uma olhada em mim e eu queria lhe dizer: "Sinto sua falta. Por favor, no fique zangado comigo, no vanos fazer esta terrvel viagem como inimigos". Mas
havia s o silncio entre ns.
- Pegue a estrada - disse Morgan, novamente.
Quando Sam acionou o carro, os poodles latiram e ns partimos numa velocidade de quarenta e cinco quilmetros por hora. Depois de cinco horas e trinta e cinco minutos,
entremeados
com nove paradas de descanso - cinco a pedido de Morgan, quatro por conta de Sara, de Sam, de mim mesma e de um dos cachorros -, chegamos a Miami. J era noite quando
encontramos o hospital e o horrio de visita estava quase terminando.
- Quero visitar a Izzy tambm - disse Sara, enquanto Sam colocava o Cadillac no estacionamento.
- Sara, no sei se  uma boa idia - explicou Sam. - Ela est muito mal, garota.
- No - garanti. - Deixe-a vir. Ela pode suportar.
- E o Morgan? - perguntou Sam. - Acho que podemos subir aos poucos.
- Vamos todos juntos.
- No vamos demorar. Abriremos as janelas e os cachorros ficaro bem.
- No tenho certeza disso - disse Sam.
- Confie em mim - afirmei. - Izzy ficar feliz. Localizamos Laureen e Miguel e conversamos com eles por alguns minutos antes de subirmos para o quarto de Izzy.
No balco da recepo, uma enfermeira de aparncia severa perguntou a Sara quantos anos ela tinha.
- Treze - respondeu, sria, sem vacilar.
A enfermeira sacudiu com a cabea e nos deixou entrar. Havia pouca
iluminao no quarto. Um abajurzinho de cabeceira projetava um fino jato de luz branca. Izzy estava
dormindo, tomando soro na veia. Sua cabea estava descoberta e usava o pijama vermelho que eu lhe dera.
Ficamos em p ao lado da cama-todos ns. No sabia se devia acord-la ou no. mesmo se soubesse, no saberia o que dizer. Fui para junto dela. Sua mo estava
lisa e leve como a de Morgan. Ela abriu os olhos.
- No acredito! - sussurrou ela. - Veja quem est aqui! eu com meus cabelos
despenteados!
- eu lhe disse que viria.
- Como vocs vieram? - perguntou, com uma voz que dava a impresso de que estava falando debaixo dgua.
- Com o Cadillac de Morgan. H ainda quatro cachorros e um papagaio morrendo de vontade de subir e dizer ol. Sam est aqui tambm. Alm de Sara e Morgan.
Ela riu baixinho e pediu: - Venha c, pessoal.
Sara pegou na mo de Morgan e foram para o outro lado da cama.
- Ns ganhamos o torneio de basquetebol, Iz - contou Sara, timidamente. - Ns arrasamos com eles completamente. Ganhei um trofu. Gostaria de ter trazido para dar
a voc.
- Tudo bem. Fique com ele. Voc sabe que no consigo driblar mesmo que eu faa o maior esforo do mundo.
Sara mordeu o lbio e sussurrou: - Voc sente dor?
- No muito. Pode ter certeza - disse ela e se voltou para Morgan. - Voc anda se metendo em confuses, Morgan? Morgan ficou olhando para ela com um olhar desconfiado.
- Est tudo bem, cara. Este lugar me assusta tambm. Sara,
talvez seja melhor voc levar Morgan l fora no corredor um pouquinho, est bem?
Sara concordou. Ela pegou no brao de Morgan, mas ele se recusava a se mover.
Ele abriu a boca, mas no falou nada.
- Vamos, Morgan - convidou Sara.
Subitamente, Morgan pegou a mo de Izzy, inclinou-se vagarosamente, trouxe-a at seus lbios. Seus olhares se cruzaram e eles trocaram um sorriso.
- At mais, Morgan - sussurrou izzy.
Morgan se deixou levar e Izzy voltou-se para mim. Seus olhos estavam cheios de lgrimas.
- Meu Deus, toda essa coisa da morte  um porre! Nem poderei ver as danadas das tartarugas, Al.
-  claro que voc vai ver as danadas das tartarugas.
- No, no vou - disse ela, apertando um pouco minha mo. - No minta para mim, est bem? No mais. Estou to dopada que acreditaria em qualquer coisa que me dissessem.
Olhei para Sam. Ele estava de p na outra extremidade da cama, segurando na grade de metal.
- Est certo, Iz - concordou ele.
Eis o momento, pensei,  agora. Podemos lhecoontar a verdade. - Nem mesmo consegui ser uma droga de uma cobaia - disse Izzy. - No vai ser possvel mudar o mundo.
- Izzy, voc mudou o meu mundo. Uma lgrima rolou pela sua face.
- Pois ! Acho que j  alguma coisa.
-  tudo - sussurrei, percebendo que minhas lgrimas caam sobre seu brao, sobre o cobertor - por toda parte.
Izzy fechou os olhos e ficou em silncio. Por um momento pensei que ela tivesse desmaiado. Mas com esforo conseguiu abri-los novamente.
- Apenas prometa-me uma coisa - pediu ela, com uma voz quase inaudvel.
- Fale - disse eu, soluando.
- Os gmeos de Paris. No esquea. - No vou esquecer.
- Apague essa idia. No precisa ser gmeos. Apenas v a Paris. Com o cara certo - afirmou ela, com um leve sorriso. Quanto a mim, acho que poderia ter cuidado
dos gmeos.
Ela olhou para Sam e eu me afastei procurando, em vo, por uma caixa de Kleenex. Encontrei algumas perto da cama ao lado e uma vazia atrs de uma cortina semi-aberta.
Quando voltei, Sam estava segurando a mo de Izzy. Ele chorava copiosamente.
Parei perto da cortina sabendo que tinha mais coisas a dizer. pelo menos uma vez, queria dizer a coisa certa.
No o que eu pensava que pudesse agrad-la mas apenas a verdade. Mas era a vez de Sam agora. Eu esperaria, contaria a ela e em seguida, provavelmente, iramos embora.
Sam inclinou-se sobre Izzy sem dizer uma palavra. Seus lbios se uniram delicada e afetuosamente, a mo dela sobre seu ombro e se beijaram para sempre. Quando se
separaram, ele sussurrou alguma coisa para ela.
No consegui ouvir as palavras, mas pude ver os olhos dela e os lbios dele.
Pelo sorriso radiante de Izzy ao ouvir Sam dizer "amo voc", compreendi que isso significava muito mais para ela do que qualquer verdade que eu pudesse
lhe contar.
Compreendi que ele realmente a amava, talvez com a mesma intensidade com que me amava.
Fiquei feliz.

14. Ela estava indo para casa conosco
- Obrigada.
Sam deu uma longa tragada no cigarro e perguntou: - De qu?
estvamos sentados num banco prximo  entrada do hospital. Os besouros giravam em volta da luz fosforescente acima de nossas cabeas.
- Pelo jeito que voc disse adeus. Por... sei l, por amar a Izzy.
Ele me lanou um olhar desconfiado e comentou:
- No compreendo, Alison. No sei como voc aceita tudo isso numa boa. Veja a confuso que criamos!
- Que confuso?
- Bem, para comear... - explicou ele, dando uma longa e lenta tragada. - Para comear, estou apaixonado por voc e pela sua melhor amiga, que, por acaso, est l 
em cima num quarto fedorento de hospital, morrendo. E sua irm e meu av - que pensa que vai para Wisconsin para prensar queijos ou ento para Vegas para jogar vinte 
e um - esto l na lanchonete onde ele est lhe ensinando a trapacear no jogo de pquer. Alm disso, tem um Cadillac no estacionamento com quatro cachorros
e um papagaio sujando todo o banco de trs de coc. S para comear.
- Sara j sabe jogar pquer - falei.
Sam jogou o cigarro fora e ficamos olhando-o enquanto se queimava at se apagar. Ele acendeu outro com todo o cuidado, compenetrado.
- Voc est fumando novamente - disse eu. Ele deu uma longa tragada, me ignorando.
- Como consegue cuidar to bem de Morgan e ser to desleixado consigo mesmo? - reclamei. - voc foi suspenso da escola, est em via de perder o emprego, est fumando 
e, por falar nisso, para ser franca, precisa cortar os cabelos.
Ele deu um pequeno sorriso de desdm.
- Est bem, vamos supor que estamos num tribunal - disse eu. - Meu ponto de vista  que voc est estragando sua vida tentando fazer algo impossvel. No pode impedir
que Morgan envelhea, Sam. H coisas que simplesmente no podemos mudar.
como voc pode ter ficado l, ao lado da cama de Izzy, e no compreender isso? A vida tem seus ciclos. Izzy sabe disso. Eu acho que Morgan tambm, embora voc no 
ache.
Ele olhou-me zangado e reclamou:
- O que leva voc a dizer isso sobre Morgan?
Suspirei. De repente me senti cansada.
-  difcil explicar. Antes de entrarmos no carro hoje na hora de partirmos, ele disse para mim: "uma ltima viagem", como se soubesse que alguma coisa ia mudar 
logo.
- Ele afirmou tambm que ia jogar dois mil dlares no vermelho trinta e dois, quando chegssemos a Vegas. Ele no sabe o que est dizendo na maior parte do tempo.
Toquei em seu joelho e considerei:
- Ento, tudo isso no tem importncia, no  mesmo? a no ser para voc.
Sam deu uma ltima tragada no cigarro, olhou para ele e jogou-o para o lado.
- Temos de ir. No me mexi.
- Quando conheci voc, Sam, me perguntei se voc realmente se importava com sua vida.
- Sim, a teoria do desejo de morte - observou ele, secamente.
- Pode rir, se quiser. Mas, quando nos encontramos pela primeira vez, voc estava deitado numa vala enrolado em sua moto e logo em seguida manchou de sangue a minha
melhor camiseta.
- Voc contou que era velha.
- Menti - disse e fiz uma pausa. - apenas no entendo como voc pode tratar a si mesmo to mal e ser to bom com Morgan.
Sam fixou seu olhar em algum ponto atrs de mim e afirmou:
- Porque devo isso a ele.
- Mas algum tem de cuidar de voc, Sam. Eu sei que seus pais no foram um exemplo nisso quando era criana, mas isso no significa que voc tenha de manter a tradio
- disse eu, aumentando o tom da minha voz enquanto falava. - Quer dizer, a Izzy est morrendo l em cima e no tem a mnima possibilidade de escolha. Mas voc tem.
Ns temos.
Ficamos sentados l por um tempo enquanto ouvamos os besouros batendo na lmpada. Verifiquei as horas. Eu precisava ligar para minha me e pegar Sara e Morgan.
Tnhamos ainda uma longa viagem pela frente e Sam e eu no estvamos chegando a lugar
nenhum em nossa conversa.
Levantei-me e disse:
- Voc est certo. Acho que devemos ir.
- Sei que parece loucura, Alison. Mas com certeza eu sentiria falta dele. Gosto de cuidar dele, mesmo que faa tanta trapalhada.
- Voc no fez nenhuma trapalhada, Sam. Voc fez o melhor que pde. Voc o fez feliz por algum tempo. A mesma coisa aconteceu com Izzy. So coisas boas, mesmo que
o final seja meio confuso, bem diferente do que planejamos, isto , tudo muito certinho.
- Vamos - disse Sam, levantando abruptamente e suspirando. - temos uma longa viagem de
volta.
- Estou feliz por ter vindo.
- Sim, eu tambm - concordou ele, fazendo uma pausa. Que ser que vai acontecer agora? ,
- Ns vamos pegar a estrada, acho eu. Sam concordou sorrindo.
- vamos ver onde ela Vai dar.
Passados quatro dias, Izzy entrou em coma. Uma semana e meia mais tarde ela morreu. Houve uma cerimnia religiosa tradicional na igreja, mas depois fomos todos para 
a praia onde Laureen e Miguel espalharam suas cinzas.
Eles no queriam. Sam e eu tivemos de convenc-los de que este era o desejo de Izzy.
No final eles cederam e eu fiquei feliz em podermos fazer alguma coisa pela Izzy, mesmo depois de morta. Embora achando que isso seria um sacrilgio, Rosa veio para 
a praia conosco.
levei Sam no meu carro, j consertado, para que pudesse levar Morgan. Sam no tinha certeza de que ele entenderia, mas como ele se afeioara a Izzy, esta parecia 
ser a coisa certa a fazer.
O dia estava quente, o ar pesado e o cu nublado. De vez em quando. um vento leve soprava - um suspiro e nada mais. Conduzi o grupo - amigos, parentes e uns professores
- ao lugar escolhido na areia. Ns parecamos tolos usando roupas formais enquanto a uns quinze metros dali, na praia, as pessoas estavam deitadas em toalhas liudweiser,
cobertas de bronzeador, torcendo para que o sol aparecesse.
Miguel estava de p numa pequena elevao, esperando que a brisa soprasse. Ele segurava uma pequena urna de vidro nas mos. A grama roava nossas pernas de forma 
incmoda e nossos sapatos se encheram de areia. Algumas pessoas soluavam e ningum falava. J tnhamos cantado, rezado e chorado - tudo o que podamos fazer.
Ficamos esperando. As ondas iam e vinham, indiferentes. Morgan andava de um lado para outro, Rosa se lamentava e Gail assoou o nariz.
Subitamente a grama comeou a farfalhar e dois pinheiros tortos e eriados a balanar. Um vento fresco chegou at ns soprando nossas saias, gravatas, e desarrumando 
nossos cabelos. Miguel abriu a pequena urna, abaixou o brao rapidamente e as cinzas de Izzy se espalharam ao vento.
Ficamos observando em silncio e esperanosos. Imagino que todos ns espervamos ver um daqueles milagres de filmes de televiso em que as nuvens se abrem e o sol 
surge, alguma coisa bonita e fantstica no final. Mas depois de alguns segundos compreendemos que tnhamos de nos contentar apenas com aquela fraca rajada de vento.
O grupo se dispersou lentamente. Sara levou Morgan at a praia para procurar dentes de tubaro. Sam parecia pouco  vontade de terno e gravata.
- Voc j quer ir? - perguntou ele.
- Quero me despedir de Iz, LLaureen e de Miguel.
- voc pode esperar um pouco mais? Queria ver se podia falar com Rosa por um minuto.
- Claro.
Fiquei olhando Sam enquanto ele caminhava pela areia. estava pensando que era muita gentileza de sua parte ir consolar a Rosa quando me lembrei que ela trabalhava
numa casa de repouso. Perguntei-me se, por acaso, ele e sua me haviam tomado alguma deciso em relao a Morgan. Ns nos falamos muito pouco depois daquela
noite
no hospital.
LLaureen, Miguel e meus pais conversaram por um longo tempo e em seguida LLaureen se aproximou de mim e tirou um envelope de papel manilha da bolsa.
- Izzy queria que lhe desse isto.
Abracei-a e fui me sentar num lugar tranqilo, perto das ondas. Dentro do envelope estava o mapa de ruas de Paris que eu lhe tinha dado. Havia um bilhete preso com 
um clipe na borda de cima.
Al, 
Voc e o Sam vo precisar dele. Obrigada por partilhar. Amo voc.
Iz
Fiquei olhando o bilhete por muito tempo. Ela j sabia.  possvel que soubesse o tempo todo. Enquanto eu estava toda preocupada em como lhe contar, ela j sabia.
Dei uma gargalhada. Fazia sentido. Ela era muito mais esperta do que todos
ns, meros mortais.
Procurei Sam pela praia. Rosa estava escrevendo alguma coisa num carto de visita e em seguida ofereceu-lhe. Ela deu umas palmadinhas em suas costas, acenando com 
a cabea, firmemente.
- Allison -chamou minha me, vindo em minha direo, com as sandlias na mo e os ps descalos
fazendo buracos na areia.
- Voc est bem?
- Sim - disse eu, colocando o mapa no envelope. - Estamos indo para casa.
Onde est Sara?
- Ela e Morgan esto andando pela praia. Ela pode ir conosco.
Minha me chutou uma concha.
- O velho  um amor de pessoa, no ?
- Adorvel - concordei eu, segurando o envelope. - Me, o que diria de um outro animal em casa? Ou dois?
Ela cutucou-me com o p e disse:
- Por favor! Como se j no tivssemos o bastante!
- Acho que voc est certa.  claro que se Sara pudesse ajudar...
- Acho que est na hora de eu ir embora - insinuou minha me evasivamente.
Ela inclinou-se e beijou minha cabea.
- Diga-me s uma coisa - insisti. - Que voc acha de papagaios?
Ela saiu rapidamente, tapando os ouvidos com as mos e gritando:
- No consigo ouvir voc.
Fiquei em p protegendo os olhos com as mos. Sam estava indo em direo a Morgan e Sara. Ele levava o cartozinho da Rosa em sua mo.
- Sara! - chamei. - Venha c um segundo. Tenho uma proposta a lhe fazer.
Ela veio correndo e conversamos por um instante. Em seguida, nos juntamos a Morgan e Sam e samos andando pela areia quente. A maioria dos parentes e amigos j
tinha ido embora. Uns poucos estavam no estacionamento conversando em voz baixa e respeitosa ou rindo baixinho.
Ouvi algum chamar meu nome e me voltei. Rosa estava acenando para mim do seu carro. Ela pegou alguma coisa do banco da frente e foi encontrar-me na areia.
- Para voc - disse ela, empurrando um suter branco nos meus braos. - Eu fiz para Izzy. Sei que est muito quente, mas, quem sabe, no
prximo inverno?. Sua voz sumiu.
-  lindo, Rosa: Realmente. Obrigada.
Ficou olhando fixamente para a praia. Seus olhos estavam inchados e sua boca cada.
- Espero que no tenha ficado chateada com o fato de vir aqui, com as cinzas e tudo o mais. Era o que Izzy queria.
- Se Izzy queria estar aqui... - disse ela, manuseando seu rosrio, inquieta. - Se Izzy queria isso, ento, est bem.
Fui para o estacionamento depois que ela foi embora. Na extremidade da praia, parei e me voltei. Olhei para o lugar onde estivramos, onde
miguel abrira a urna ao vento e as cinzas de Izzy voaram.
Pensara que este final seria importante para Izzy. Mas naquele momento compreendi que era apenas um smbolo e um ritual para ns e no para ela. No era Izzy sendo 
carregada pelo vento, alojada numa moita de grama da praia, se desmanchando nas ondas. Ns no a estvamos deixando para trs, aqui na areia.
Ela estava indo para casa conosco, estava indo para seu lugar.

15. Pensei que fosse desmanchar na areia
Trs meses depois, numa noite em pleno vero, uma daquelas em que a lua est to clara que  impossvel dormir, Sam e eu voltamos  Praia das tartarugas. Na maioria 
dos ninhos, as tartarugas j tinham sado dos ovos, mas no que ficava perto do lugar de Izzy ainda no havia movimento algum. Estendemos um cobertor velho que eu 
levara. Sentei-me entre as pernas de Sam me encostando em seu peito largo como se fosse uma cadeira. Ele colocou os braos  minha volta e ficamos esperando.
Acariciei seu brao e entrelacei meus dedos nos seus.
- pode ser que acontea esta noite - disse eu. - na maioria dos outros j nasceu.
- talvez seja aleijado - disse ele. apenas para me provocar.
- No aqui. No na praia de Izzy.
Ele afastou meus cabelos e comeou a beijar ao longo do meu pescoo to leve quanto
uma aragem de chuva, e eu estremeci. Sentia como se tivesse estado sentada ali
a vida toda. Como se nada no mundo tivesse a mnima importncia, exceto o fato
de poter sentir a batida regular de seu corao nas minhas costas.
- O que sua me disse esta manh quando partiu? - perguntei. - Ainda quer
que eu volte para Detroit, mas se eu quiser ficar com Jane, ela no se importa. Podemos
resolver o problema da transferncia da escola e as outras coisas pendentes.
ela entende que eu queira ficar por aqui para que possa visitar Morgan.
- O que voc respondeu?
- Que este no era o nico motivo para ficar aqui - Disse ele, enquanto seus lbios roaram meus cabelos.
praias lindas, voc quer dizer.
- Na verdade, quis dizer que tinha de terminar o curso de vero se realmente pretendesse passar para o quarto ano.
Empurrei-o e tentei me afastar, mas foi impossvel,
ele me
beijava to carinhosamente que eu pensei que fosse desmanchar na areia e desaparecer para sempre. Depois de algum tempo, rolamos no cho
abraados, sentindo o calor
de nossos corpos. De repente, Sam se ergueu.
- O que foi? - perguntei. - O ninho.
Sentei-me sobre os calcanhares. O lugar, que fora marcado com estacas para que ningum pisasse, estava plano e tranqilo. - Voc est tendo alucinaes - disse eu.
- No. Tenho certeza de ter visto alguma coisa.
- Voc acha que isso  loucura, no  mesmo? - disse-lhe, com um olhar dbio.
- Que  isso! Gostei dos peixes-bois, no se lembra? - Voc nunca viu um peixe-boi na sua vida.
- Vi uma garrafa que tinha uma semelhana extraordinria com o peixe-boi.
Deitamos novamente e ficamos observando o ninho, esperando.
- Foi fantstico quando a Izzy e eu as vimos nascer nesta mesma poca no ltimo vero - disse eu. - Elas simplesmente pipocavam da areia, dezenas delas, e saam
em disparada em direo  gua.
- Sinto saudades dela - disse ele, enquanto acariciava com os dedos meu brao nu.
- Eu tambm - sussurrei. - Voc veio aqui com a Izzy? Era noite, como hoje?
- No - disse ele, acariciando meu rosto com as pontas dos dedos speras. - Apenas voc.
- Gostaria que voc tivesse vindo. Ela teria gostado.
- Ns formamos um casal estranho, no  mesmo? - perguntou ele, sorrindo.
Virei-me e o beijei lenta e demoradamente, enquanto acariciava cada curva e
ngulo de seu corpo rijo. No foi como aquele
primeiro beijo de h muitos meses. Este foi longo, confuso e cheio de cores e nuances.
Tambm foi muito melhor porque trazia consigo uma estria e muitas lembranas.
Subitamente Sam agarrou meu brao e disse: - Olhe! A areia. Est se movendo.
- Meu Deus,  mesmo!
- Eu disse a voc. E agora?
- Agora devemos esperar um pouco mais.
Sam pegou minha mo e beijou meus dedos lenta e carinhosamente.
- Amo voc - disse eu.
- Amo voc tambm - disse ele. - Amo voc desde a primeira vez que a vi, quando me socorreu.
Sorri e perguntei:
- Voc j esteve em Paris, Sam?
Mas ele no teve tempo de responder porque, de repente, houve uma erupo de filhotes de tartaruga que saam da areia como se estivessem sendo cuspidos de um pequeno
vulco.
Eles saam em disparada em direo  gua cheios de vida. Seus cascos macios e molhados pareciam estrelas pulando sob o reflexo da luz do luar. Ficamos observando 
rindo, enquanto atravessavam a praia - a praia de Izzy - e desapareciam na imensido escura e misteriosa.

Fim
